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Enquanto isso, sigo com a vida, amealhando pessoas queridas. Temo por elas; gostaria de me fazer entender. Poucas vezes fui tão sincero.
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Enquanto isso, sigo com a vida, amealhando pessoas queridas. Temo por elas; gostaria de me fazer entender. Poucas vezes fui tão sincero.
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Obs: O texto é inútil e provavelmente de má qualidade. Incluo, então, para evitar violência, links aleatórios para aumentar a sua cultura geral.
O Crasso começou a ser tomado pelas reticências numa noite de cerveja. A princípio, pensou que fosse coisa do frio, um mau-olhado meteorológico nas cordas vocais. Parou no meio da cantada. E não era qualquer cantada; não perguntava se ela já tinha vindo ali, nem mesmo queria saber o nome dela, nome de princesa. Não, era uma daquelas criativas que surgem semana sim, semana não. No meio da frase, sorridente e confiante, “...”. Assim, reticência quadradona mesmo, fonte Verdana.
Rouco uma pindamonhangaba. Estava era, como descobriria mais tarde, reticente. (Não é esse o propósito das reticências? Revemos nossos dicionários, que a historinha é meio nonsense mesmo.)
Pois bem. Pegou alguns tic-tacs emprestado do Manuel. Deitou o dia seguinte inteiro. Pediu pra mãe fazer chá e paparicá-lo. “Menino, você não está muito velho pra isso não?”, ralhou a mãe, sempre mau-humorada. “Ah, mãe, você ...”. Não falou mais o resto do dia. Os pernilongos que erravam pelo quarto comentaram até que viram balõezinhos de histórias em quadrinhos, só com reticências. Essa foi pra deixar claro que silêncio é diferente de reticências. “Silêncio é silêncio, reticências são três pontinhos”, escreveu Al-Qali Mahdi, sábio sufista do século XVI.
Crasso... Que nome a mãe do moleque foi escolher! Era isso que sempre a sua namorada pensava, a Marcela. “Nome de cônsul romano!”, gabava-se do gosto duvidoso a mãe. “Cônsul? Com certeza devia ter havido um embaixador com um nome melhorzinho...”.
Sim, a Marcela era uma porta. Mas uma porta de madeira de lei, finamente decorada e envernizada, com figuras lascivas em alto-relevo, esculpidas por um holandês esquizofrênico viciado em prostitutas latinas. É, a Marcela vinha daquela longa tradição de mistura entre europeus e nativos, e era o que podemos chamar de gostosa de primeira linha. Deliciosa, para ser mais exato. E não precisava ser muito mais que isso.
Era a namorada do Crasso, e suas amigas – portas menos exuberantes: portinholas, portõezinhos, alçapões etc – sempre a tinham sacaneado por isso. Mas ele beijava bem, tinha um carro legal e era bem dotado. O que mais uma porta poderia querer? Olhos-mágicos e calços! Haha! Péssima piada, mas eu tenho certeza de que 60% dos que estão lendo isso pensaram nela antes de lê-la.
Mas agora ele estava reticente. Chato, hein? Ela queria falar de como achava que sua bunda estava caindo, e o máximo que recebeu de apoio foi um apertão na nádega esquerda. Nem uma palavrinha doce, ou mesmo safada. Também, com esse nome... Não sabia como tinha ficado com ele tanto tempo. “Dois meses! Que desespero, vou cair fora!”.
E caiu. O pobre do Crasso não pôde nem argumentar. Ficou tendo que ouvir o riso dos três pernilongos supracitados. Chamavam-se Xfv, Kll e Trw (pernilongos não conhecem vogais).
“(risos). Mnh hstr m qdrnhs fvrt! (risos)”. “(risos)”. Trw, não querendo, como Kll, dar como única contribuição à história uns risos entre parênteses, voou até a cama e picou o rapaz. Voltou todo cheio de si. Literalmente.
Então. De repente perdi o sono. Acordado pelos meus dedos, parece que nunca dormi; vim escrever-te. Poderia usar a desbotada analogia de que a noite lá fora é calma, mas aqui dentro o mundo agita-se, revolto. Poderia, mas não o faço. Primeiro, porque exige uma cara-de-pau bem grande repetir analogias desbotadas a essas horas. Segundo, porque não; estou tão sereno quanto a lua lá fora. Estou em lua nova.
Ainda assim não consigo dormir. Nas veias não há uma pulsação supérflua, uma gota sequer de nenhum desses hormônios do caos. O coração só bate porque é só isso que ele sabe fazer. Ele bate, no ritmo daquele jazz que se ouve em lugares com pouca iluminação e muita fumaça de cigarro. Vivo, apenas.
Já reparou quão notívaga é a luz do monitor do computador? Ela trabalha alegre, saltitante, não importa o quão tarde. Tenho pra mim que é mais fraca de dia, como se gostasse mesmo é do depois da meia-noite. Já eu, vou definhando em sonolência, depois de intermináveis horas de digitação. Até que apago a luz dos olhos; durmo sem saber o que me trouxe aqui. Povoam meus sonhos saltos, abelhas e uma multidão que veste chapéus. Não tenho nem a sorte de sonhar com o motivo da insônia fajuta.

É que entrei na casa das reflexões. Sabe, um hiato entre semanas de vida em que a gente não aceita nenhuma novidade, nenhuma caminhada pra frente na nossa existência. Porque tem que parar e pensar. Revista mesmo, retrospectiva, teste, rewind, limpar a cabeça do vídeo, conversar por duas horas consigo mesmo. Isso tudo embolado junto, sentado numa cadeira verde. Tomar pouco banho, só pra sair de casa. Nem sair, se pudesse escolher. É hora da faxina, moleque, depois você vai.
De vez em quando é assim que tem que ser. Vamos pontuando todo o viver assim, com momentos de olhar a parede sem ver a parede. Porque o que a gente tá vendo é justamente o contrário; o dentro da gente, que se enfunila pelos olhos e vai parar naquela imensidão de nada que é o que se chama de eu. Eu. Viajar pelo eu pede ficar sentado e de olho aberto. Não é sair do mundo não senhor. É estar tão no mundo que não se consegue nem se mexer. Digo e redigo. Quem mais está com o pé nesse chão nosso de cada dia é quem parece não estar. Porque quem pisa no chão não é o nosso pé, mas a gente todo, corpo e alma. E pra ver alma, minha gente, só sentado e de olho aberto, vidrado.
E aí que é a parte da diversão. Tem morte, tem guerra, tem romance, tem comédia, tem uma cinemada toda. Tem coisa ruim e coisa boa. Lá dentro, a gente é Nobel da Paz e do Diabo também, às vezes os dois no mesmo prêmio. É hora de arrumar, cortar, chutar e polir; caminhar por um caminhozinho frio e escuro e ir visitando cada recanto do lá dentro, onde – todo mundo já cansou de saber – quem é rei é só a gente mesmo. Rei de um jeito, rei de outro, sentado nos tronos mais esquisitos do mundo. E a gente conversa, embaixador de si mesmo, negocia, relata e argumenta, e leva consigo a vitória, a derrota, e todos os termos de cada conversa com cada majestade nossa. Todo mundo é um pouco jornalista da introspecção.
Resultado disso tudo, tem não. Desde quando alguma coisa na vida tem resultado? Tem é acontecença. E o porquê a gente inventa depois.
Ela-lírico disse a Eu-lírico que o amava. Mas por trás do cromaqui, Ele-lírico fazia a festa. Eu-lírico descobriu; estapeou Ela-lírico, que, envergonhada, não viu mais ninguém. Ele-lírico foi tirar satisfações e apanhou também. Nós-lírico acreditou em tudo e ficou chocado. Até que Eles-lírico chegou e explicou: “Calma, minha gente, que isso é ficção”.
Sabe quando você vê, lá longe, lá longe, onde tudo ainda são só manchas de cor, surgir a mais grata surpresa, ou a mais ansiosamente aguardada chegada? Você reconhece até os dentes daquela que vem. Sem nenhuma explicação ótica possível, você decifra os seus olhos a centenas de metros de distância. Eis o instante mais mágico de um encontro; momento que dispara o esboço de sorriso, perdurante por todos os seus inúmeros passos, até que ela, por fim: “Olá!”. Segundos divinos.