terça-feira, março 21, 2006

A alguém

Sou uma mulher imprecisa. É melhor avisar-te logo, caro senhor, para evitar que rasgues essa carta já na quinta ou sexta linha. Sim, sou uma mulher indefinida, vaga, ligeiramente aquosa. Portanto, tenha calma, e faz o que quiseres com isto. Não é importante que ouças, mas é essencial para a minha sanidade que eu diga.

Serei direta: amo-te. Soube ontem, por volta das oito e meia, na terceira dose de vodca. Dizem que o álcool nos enevoa o juízo; eu digo que ele nos dá um quê de pitonisas. Falo por nós, mulheres. Os homens estão longe de suas fronteiras; sempre capitais. Ademais, eles resistem melhor à embriaguez. Já nós, mulheres, estamos sempre no limite de nossas imprecisões, e qualquer pequeno empurrão nos faz cair. No abismo de nós mesmas.

E eu caí de cabeça. Mas não digo que tenha sido uma epifania. Estas são místicas, levemente divinas. Eu despenquei foi num poço de entranhas e lama. Lá, eu vi todos os homens que passaram: pela minha cama, pela minha rua; pelo meu ventre, pelo meu pensamento. Amei todos eles. Alguns com fogo, outros com sonho. Às vezes o amor morava no sangue; outras nos fios de meu cabelo. Como vês, amei demais.

Entretanto – não se assuste, lindo rapaz -, jamais amei como a você. Sim, você. E mesmo quando o meu coração e o meu sangue – ou os insensíveis fios de cabelo – eram dos outros, eles eram também seus. Pois eu o amo desde o primeiro dia em que não o vi. Você, lindo rapaz; tu, caro senhor, que talvez...

“Talvez”, que nada! Meu abismo me diz que você não existe. Mas sou uma mulher imprecisa. E acho que espalhei um pouco de ti por todos os homens de minha vida. Você, que não tem olhos, boca ou livro predileto. Tu, que és tão impreciso quanto eu mesma; sem nem mesmo um pronome pessoal definido; aquoso como meu abismo; curvo como um espelho retorcido. Um espelho...

Digo, já pela terceira vez, que sou uma mulher imprecisa. Como um espelho. Podes imaginar, caro senhor, um espelho impreciso? Assim o são todos os espelhos de mulher. Assim é você, meu lindo rapaz. Um espelho tão vago que eu nem me reconheço mais. Espatifei você. Espalhei teus cacos, antes mesmo de me ver lá dentro. E só agora, com a ressaca da bebedeira de ontem, é que começo a ver. Um pedaço aqui, outro acolá; alguns nos meus – sempre insensíveis – fios de cabelo; muitos outros na corrente sangüínea. Terei como juntá-los? Mas não, cacos não se juntam. Cacos se jogam fora, se esquecem; pelo menos até o próximo porre.

Obs: Bernardo não mudou – nem pretende – mudar de sexo.

segunda-feira, março 13, 2006

Pequena parábola - Parte II

... o Remela foi brincar na casa do Pedrinho. O Remela... Bem, o Remela era o grandalhão da vila, e, como todo grandalhão das histórias, sua burrice era do tamanho da sua força, que era impressionante. Admirável também era a quantidade de secreções que saíam de seus olhos, nariz e ouvidos, e o que ele fazia com elas. As garotas não gostavam nem um pouco, mas quem liga pra elas?

Aproveitando-se da “lentidão” do vizinho, Pedrinho logo convenceu-o da inferioridade tecnológica de seu exército, que, apesar de contar até com o último modelo de helicóptero de combate, não tinha o “plus a mais” proporcionado pelos engenheiros químicos do inimigo. A tropa do Remela foi trucidada rapidamente. Turbinada pelo “combustível atômico” Aerolin, a cavalaria blindada de Pedrinho agiu com uma mobilidade de dar inveja a Rommel. Logo Remela foi cercado, e sua superioridade aérea não pôde fazer nada contra as rajadas de Rinossoro da artilharia antiaérea do adversário. Uma vitória decisiva.

Atônito, o Remela olhava para o campo de batalha. Perto de um dos pés da mesa de centro, jazia o todo-poderoso helicóptero, que ganhara no último Natal; não houve sobreviventes. Enquanto isso, no acampamento adversário, os médicos aplicavam comprimidos de Claritin D nos ferimentos dos soldados, que logo ficavam de pé. Assombrado, o Remela perguntou: “Onde você arranjou isso tudo?”. “Segredo de Estado, Remela”, Pedrinho respondeu, sorrindo. “O que eu não daria pra ter um arsenal desses também...”, suspirou o Remela, enquanto guardava, sem o menor cuidado, seu helicóptero de volta na caixa. “!”, acendeu-se a luzinha na cabeça do Pedrinho, que teve sua primeira grande idéia. “Você é um gênio, Remela!”.

domingo, março 05, 2006

AAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!

Que foi? Nunca teve vontade de gritar não?

sábado, março 04, 2006

A volta pra casa

Saudei o pardalzinho na esquina da minha rua. Cada mancha escura nos muros das casas! Do que são feitas? Umidade, talvez. Mas, lá dentro; acho é que surgem da vida de sem-mais-querer dos suburbanos. Eu via.

É que a gente mais percebe a tristeza do mundo quando está demais feliz. Pardalzinho me saudou de volta. Ê, pardalzinho bonito! Somos nós dois no topo do mundo, e esse povo com manchas nos muros... Aquele dia, se eu quisesse, te juro que voava igual um pardal. Era só estalar os dedos e pensar nela, e lá ia eu, voando de pouquinho em pouquinho, um galho aqui, um poste ali – pra não cansar – e voltava. Porque pássaro é isso aí; voa porque é leve de alegre.

Não se estranhe com o meu dizer as coisas assim, meio solto. Mas assim que é a vida da gente. Eu narro aqui uma descida de rua – da esquina até a minha casa; enquanto desço, a minha vida toda revolve em si mesma, dentro da minha cabeça, em menos de 200 metros. Como pode? Ah, se pode! Penso no pardalzinho, na prova de geografia da 7ª série e até na batata grande que vi outro dia no mercado. É tudo assim, espalhado, que nem lixo na rua depois da Comlurb passar.

Mas principalmente eu pensava era nela. Pensamento da gente acho que precisa de algo que junte tudo e dê sentido. Porque senão a gente acaba até morrendo, imagino. E era ela que agregava todo o meu sentir e pensar, e não tinha prova da escola de toda série que fosse que não tinha ela no meio. É isso aí. Fragmento é só ilusão. Na verdade está tudo ligado, perfeito sedimentado em coerência. Isso eu vi depois que o pardalzinho voou. E tinha as manchas no muros; só tinha tristeza nelas porque tinha eu no topo do mundo.

Eita, mas que isso era parágrafo pra fechar tudo e explicar a maneira de contar desrabiolada. Mas já veio, então aí fica, na quarta posição. Aí eu já descia, passava pela frente da casa do velho que nunca saía da porta. Nunca tinha dado bom dia praquele velho, que sempre pareceu olhar pra mim com cara de vô. Ê, vô! Nunca tira o pijama, ele. Parece que acordou de um pesadelo e veio encontrar a juventude na porta, batendo. Pesadelo real; ele era desremediadamente velho mesmo.

E eu jovem. Eu amante e amado, voltava do céu. Passei pelo vô, não dei bom dia não. Três passos atrás eu teria saudado, que nem com o pardalzinho. Engraçado os ânimos da gente; mudam com dois metros de caminhada. Eu já pensava nela de novo, e no beijo roubado no meio do jardim. E o beijo fechou o dia, e fechou minha vida: ali eu podia morrer satisfeito. Sabe quando a gente se sente em casa? Eu me sentia no céu. E o céu é a casa de todo mundo.

Uma vez eu vi Deus no céu, te juro. Não lembro se era verdade sonhada ou acordada, mas o que é certo é que era Deus, e que ele era cor de abóbora; uma fumacinha assim, meio Fanta Laranja. E aí eu não lembro mais nada. Sei que falou comigo, me deu missão, me xingou, contou piada, sei lá. Mas ele falou, e agora, a 50 metros da casa, lembrei que ele falava era dela, e do beijo no jardim. Lembrei, quer dizer, meio na cara-de-pau. Lembrança é sempre fragmento, e sempre mentirosa. Porque, note, recordação é pensamento como qualquer outro, e – veja a explicação que está lá, na quarta posição – pensamento de ser humano só ganha sentido por outro pensamento. Bicho pode até pensar diferente. Mas homem é assim.

Então eu era isso? Tudo o que vivi não tinha sido nada – monte de pedacinho voando à toa – até que chegasse um anjo que me deixasse roubar um beijo no jardim? Acredito que sim, e não tenho vergonha não. Tem gente que passa a vida toda que nem fugindo da chuva: de cabeça abaixada, correndo, com medo de juntar seus caquinhos de viver. E tem gente que não roubou beijo no jardim, e junta seus fragmentos num sem-mais-querer suburbano. Dá mancha nos muros. Mas eu não. Cheguei em casa, recém-pintada. Pardalzinho me esperava no portão. Ê, pardalzinho bonito!

quinta-feira, março 02, 2006

Pequena Parábola - Parte I

Enxotado, com as roupas puídas, arruinado, Pedrinho chorava que dava dó. Mas sua mãe só iria voltar bem mais tarde, e ele, na falta de colo, tinha que se contentar em chorar na sua cama com colcha do Batman. Como havia chegado a esse ponto? Ele não se conformava.

***

Tudo começou quando, um dia, a correspondência chegou, e sua mãe não estava em casa. Entre contas de telefone, água, luz e anúncios de promoções no mercado da esquina, lá estava uma caixinha de papelão. Hermeticamente embrulhada num plástico transparente, endereçada à mãe e sem a menor pista de seu conteúdo, era demais para resistir.

Primeiro cuidadosamente, tentando rasgar com o canino as bordas do plástico, depois, já bem impaciente, arrancando tudo que o impedia de abrir a caixinha, Pedrinho olhou seu conteúdo. Ah! Então era assim que mamãe arranjava tanto remédio!

Aqui cabe um parêntese. Ei-lo: (A mãe de Pedrinho era médica e, como tal, recebia regularmente uma certa quantidade de amostras grátis.)

Embalagens verdes, amarelas, faixas vermelhas; comprimidos, conta-gotas, colheres de plástico. Tinha de tudo dentro da caixinha; Pedrinho ganhara na loteria. Suas brincadeiras haviam recebido um “plus a mais”, como dizia sua irmã.

Logo seus bonecos, em suas intermináveis guerras sanguinárias, tinham que lidar com um arsenal extenso de armas químicas, perigosíssimas para a vida na Terra. Se aquele tubo de Eritromicina caísse em mãos erradas... E quantas vidas foram salvas porque o médico do pelotão tinha uma ampola de Buscopam nas mãos? Como podemos ver, a única conseqüência do achado do Pedrinho havia sido o avanço tecnológico de suas tropas combatentes. Até que um dia...

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Quatro parágrafos bobos

Abre parêntese: felicidade não é verbal; muito menos poética. Não é metafórica ou metonímica, nem aceita adjetivos. Felicidade é quase - tão quase - burra. Ou iletrada.

Felicidade nem se chama felicidade; mudou seu nome já faz tempo. Hoje em dia, ouvi dizer que corre por aí, nas casas dos pobres e medíocres, enquanto os poetas... Bem, os poetas são inteligentes demais; estúpidos. Analfabetos em vida.

O sol já vai indo e ela com ele. Para onde? Para os pagodes e boates, novelas e bailes funk, brincar de se esconder e achar, sem documento algum que não o da simples existência. Ela é só danças e erros de ortografia ou dicção. Felicidade não se escreve nem se diz. Não é à tôa que beijos não falam.

Felicidade é canhota. É lápis mal apontado, desenhando bonecos na carteira durante a aula. É trêmula, cheira a perfume barato, mancha a roupa se não colocar de molho. É feijão com estronofe. Precisa de calculadora para calcular, talvez nem saiba assinar o nome. Mas sempre a usam pra fechar parêntese.

sábado, janeiro 28, 2006

Exumação

Esse texto aqui cheira a mofo. Trata-se da minha primeira - e única - coluna para uma malfadada empreitada que tive no início da faculdade: o 30segundos.

A simpática idéia consistia em um programa na tv universitária + um site cujo tema fosse a publicidade. Ambos não foram à frente, e não sinto muita falta, vista a minha quase ojeriza à publicidade hoje em dia.

Mas o texto não é mau. Ignorem os erros de pontuação. ; )

A Primeira Vez

Tenho o orgulho e a honra de publicar o primeiro de muitos textos do 30segundos. Como já ficaram roucos de tanto dizer: "A primeira vez a gente nunca esquece". Pois é. Experiências novas sempre nos marcam, sendo elas prazerosas ou intensamente dolorosas.

Quem não se lembra da primeira vez que foi picado por uma abelha? Eu me lembro. Estava na piscina de um clube, nadando, feliz com minha infantil ignorância sobre o ferrão desses animaizinhos. Quando fui sair, apoiando minhas mãozinhas tenras nas bordas da piscina, um levado zangão (ou abelha. Sei lá, é tudo igual.) que tomava sol por ali resolveu me machucar. Deleitando-se na sua eterna maldade selvagem, meteu-me um ferrão na palma da mão direita. Tudo bem, eu o estava esmagando com a força que fazia para sair da piscina, e você pode argumentar que ele não teve tempo para pensar direito, pois estava morrendo, mas eu ainda hoje acho que ele fez aquilo por prazer. Desnecessário dizer que chorei que nem uma criança (afinal, eu era uma criança) frente àquela dor lancinante. Fiz uma cena, meu pai veio e espremeu o ferrão da minha mão. Depois daquele dia, passei a olhar aqueles bichinhos amarelos-e-pretos com um misto de respeito e temor, e também nunca mais tive simpatia pelo time do Criciúma.

Também existem aquelas primeiras vezes memoráveis, de tão maravilhosas. Alguém aí se esqueceu da primeira vez no Maracanã (isto é, alguém que tenha ido ao Maracanã)? Eu não. Lá pelo final dos anos 80, ou início dos anos 90 - não me lembro bem - meu pai levou seus dois filhos para um emocionante Flamengo x Botafogo. Nessa época, ainda sem a iluminação espiritual que me sobreveio posteriormente, eu torcia para o Botafogo por influência do meu pai. Minha irmã já sofria do mal de ser flamenguista. Pois bem. Lá fomos nós para o Maracanã, que na época tinha estacionamento de pó de pedra, carregando duas bandeiras feitas pelo nosso progenitor: uma preta e branca, e outra preta e vermelha. Bom, quanto ao jogo em si não lembro de muitas coisas, afinal eu era um pirralho, e o resultado da partida até hoje é motivo de controvérsia: minha irmã pode jurar que o Fla ganhou por 2x1, mas eu sei muito bem que foi o Fogão que ganhou por esse mesmo placar. No entanto, o que eu não esqueço é a emoção que senti ao entrar no anel da arquibancada, o me fez me apaixonar de vez pelo futebol.

É claro que também existem aqueles clichês do "primeiro beijo", "primeira relação sexual", "primeiro soco na cara" etc. Contudo, já se falou tanto sobre essas primeiras vezes que seria chover no molhado. E também invadir "Restricted Areas". Como eu não gosto de chover no molhado nem que invadam minhas áreas restritas - sem trocadilho - não vou falar sobre isso. Acho que já deu para dar o gostinho de "primeira vez" nesse site. É o primeiro ingrediente do tempero. O resto da equipe daqui a pouco começa a colocar a mão na massa também, e aí o site vai ficar uma delícia. Até lá, fiquem com o que temos agora e cuidado com as abelhas quando estiverem na piscina!

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Um casal

- Bruno, era camarão. E digo mais: com molho de abacaxi.
- Abacaxi?
- Abacaxi.
- Júlia, esse prato nem existe.

Mas Júlia achava que existia. Não só isso; ela tinha certeza de que fora esse prato que ambos comeram no longínquo jantar do seu primeiro encontro.

- Querida, comemos medalhão ao molho madeira. E eu sei disso por um motivo muito simples: lembro de ter passado quase meia hora pensando em como, sem que você percebesse, limpar a maldita carne de entre meus dentes.
- Ué, camarão também prende no dente. Aliás, abacaxi também.

Ela tinha razão; essa era uma das razões pelas quais ele odiava a fruta. Mas ele tinha um argumento irrefutável:

- Nem sei por que estou me dando ao trabalho de discutir com alguém que confunde a Winona Rider com a Uma Thurman...
- Ai, Bruno! Você é irritante, sabia? Até quando você vai usar isso? Convenhamos, uma pequena confusão dessas não desqualifica a minha memória.
- Júlia, uma é loura e nórdica; a outra é morena e cleptomaníaca. Não há credibilidade mnemônica que resista.
- Você fala de credibilidade, mas não fui eu quem esqueceu 15% dos nossos aniversários.
- Pra isso ela tem uma mente matemática...
- Que bom que você reconhece. Veja: por indução, eu tenho a maior probabilidade de estar correta.
- Ih, não vem com esse papo de lógica não. Quer saber? Em cinco minuto chegaremos ao restaurante, e será tudo esclarecido.
- Isso mesmo! Você vai ver que eles em servem medalhão. O maître resolverá a questão.
- Ou, quem sabe, a Uma Thurman.

Ele riu sozinho, e os cinco minutos restantes foram de silêncio. O mesmo silêncio que antecede as grandes batalhas.

- Chegamos!
- Você vai ver só!
- Teimosa...
- Chato...
- Boa noite! O que os senhores vão querer?
- Camarão com molho de abacaxi, por favor!
- Desculpe, senhora. Nós não temos esse prato.
- Hm, a Uma Thurman deve ter comido tudo...
- Ridículo...
- Como, senhor?
- Er, nada, garçom. Desculpe. Nós vamos querer o medalhão ao molho madeira.
- Lamento, senhor. Mas isso também não está no cardápio.
- Ah, não?
- Não.
- Ahn...
- Mas nós temos ótimas massas.

Comeram o ravioli.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

O mistério do jaguar

Algumas estranhezas chegam de repente, mesmo que sempre tenham estado bem na nossa frente. Na nossa cara. Quase nos mordendo.

No meu caso, a expressão correta é “quase caindo na minha cabeça”, porque falo de um quadro que tenho no meu quarto. Trata-se de uma baía, à noite, vista de uma estrada no alto de uma colina. Na pista, em primeiro plano, um magnífico jaguar azul – o carro, pois onde já se viram felinos azuis? – desfila em alta velocidade. Elegantíssimo.

Agora, a questão é: o que faz um quadro de uma máquina que parece saída da capa da revista Quatro Rodas na parede do quarto de um rapaz que mal sabe distinguir um Astra de um Vectra? O que diabos faz esse adorno na casa desse menino, que, aliás, só sabe que se trata de um Jaguar porque foi alfabetizado e pode ler sem dificuldade a palavra “jaguar” no alto da figura?

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Para descontrair

www.chucknorrisfacts.com. Esse blog anda meio abafado, denso e pesado. Como a vida não é só isso, esse post aqui será humorístico. Esse site aí ao lado é uma das coisas mais engraçadas que vi na internet nos últimos tempos. Como o próprio nome implica, trata-se de uma série de grandes verdades acerca do todo-poderoso Chuck Norris (Patrulheiro Walker, Comando Delta etc). Abaixo, uma pequena seleção, entre as centenas de sábios aforismos do site:

- Quando Chuck Norris cai na água, ele não fica molhado. A água fica Chuck Norris.

- Chuck Norris pode dividir por zero.

- Chuck Norris não faz a barba; ele chuta a si mesmo na cara. A única coisa que pode cortar Chuck Norris é Chuck Norris.

- No seu aniversário, Chuck Norris aleatoriamente escolhe uma criança para ser atirada ao sol.

- O show "Survivor" tinha a idéia original de colocar pessoas abandonadas em uma ilha com Chuck Norris. O programa piloto foi um fracasso.

- Bush estava mentindo sobre as armas de destruição em massa no Iraque. Todos sabem que Chuck Norris jamais esteve lá.

- Chuck Norris pode tocar MC Hammer (Pra quem não entendeu, é o cara que fez a música "Can't touch me").

- Chuck Norris brincou de roleta russa com um revólver completamente carregado e ganhou.

- Chuck Norris é a razão pela qual Wally está se escondendo.

- O rascunho original de Senhor dos Anéis tinha como personagem principal Chuck Norris. O livro tinha apenas cinco páginas.

- Se, por algum estranho paradoxo do espaço-tempo, Chuck Norris lutasse consigo mesmo, Chuck Norris venceria. Ponto.

- Nós vivemos em um universo em expansão. É porque todo ele está tentando fugir de Chuck Norris.

- Chuck Norris pode queimar formigas com uma lupa. À noite.

- Chuck Norris não pode amar. Ele pode apenas não matar.

- Foi Chuck Norris que matou o Cel. Mostarda, na Livraria, com um chute na cara. Quem disser o contrário é um mentiroso.

- Godzilla é uma dramatização japonesa da primeira visita de Chuck Norris a Tóquio.

- Não há rosto por detrás da barba de Chuck Norris. Há apenas um outro punho.

- A Grande Muralha da China foi construída para manter Chuck Norris fora. Falhou miseravelmente.

- Chuck Norris sempre sabe a exata localização de Carmen San Diego.

- Originalmente, Chuck Norris aparecia no jogo "Street Fighter II", mas foi removido pelos desenvolvedores porque todos os botões o faziam dar um chute na cara do oponente.

- Um fato médico pouco conhecido: Chuck Norris inventou a cesariana quando ele chutou o seu caminho para fora do útero de sua mãe.

- Em média, existem 1.242 objetos em um quarto que Chuck Norris poderia usar para te matar, inclusive o próprio quarto.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Desabafo de uma alma aleijada

Ao amanhecer parto de novo para a batalha. Nessa guerra perdida, não participo por lutar, e sim para morrer a cada dia. Toda alvorada, me dirijo ao campo de combate, acompanhado de um pelotão de fantasmas do meu passado e futuro; invariavelmente pereço. Sim, é uma guerra perdida. Mas não aceito outra existência.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Trilha sonora

Cara-caramba-cara-caraô. Era essa a trilha sonora de sua vida; um emaranhado de fonemas que nem chegavam a ser onomatopéias; irremediavelmente inexpressiva.

Jamais amou alguém a não ser por intermédio de poemas e músicas compostas por outros. Supria a necessidade de palavras com indolência, folheando dicionários ou com a despreocupação de quem tem certeza do mundo.

Sabia do Universo como a serpente sabe do céu. Sentia-se vivo, e até olhara para as estrelas duas ou três vezes, mas nem uma vez desejou alcançá-las; seu deserto de sal o fazia feliz.

Sim, jamais conheci alguém mais feliz. Tinha uns olhos honestos e um doce sorriso infantil. Deu a si mesmo para mulheres, filhos, amigos; jogou futebol, ardeu debaixo do sol, e talvez até tenha corrido o mundo. Riu e chorou deveras, ergueu taças e engoliu derrotas; sempre sonhou em visitar um lugar qualquer. Beijou, trabalhou, cantou, se desesperou e dançou. Ah, como dançou! A trilha sonora já conhecemos. Cara-caramba-cara-caraô. Belíssima música

Poeminha verde

No escuro do quarto
Piscou o vaga-lume.
Voou, sobrevoou, revoou.

Iluminado pela fraca luzinha,
O menino esboçou um sorriso;
Nos seus olhos viam-se lágrimas.

Lágrimas verdes
O inseto era a única luz que havia.
Lá fora não tinha lua
E a janela estava fechada.

O menino esboçou seu sorriso
Também verde como o vaga-lume.
Este se aproximou e piscou outra vez
Tão perto que lhe beijou a testa.

Se sorria também, não se sabe;
O certo é que sabia beijar as testas de meninos tristes.

As lágrimas verdes desceram pelo rosto verde,
E o menino, já todo verde,
Quis perguntar ao vaga-lume
Algo de que não sabemos.

Talvez nem ele soubesse;
O certo é que o vaga-lume apagou
E a escuridão voltou.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Biológico

Partiu. Como no perfeito instante antes da combustão de um fósforo ou de uma cantada de pneus, aquilo subiu-me da ponta – da exata ponta – do terceiro dedo do pé direito. Detalhe inesquecivelmente insignificante.

Sim, aquilo; para tal coisa não posso oferecer mais do que um pronome demonstrativo. Subiu, nitidamente, por artérias e nervos, passando por algumas membranas e cartilagens. E logo tomou minha perna uma biológica sensação de plenitude. Eu já não tinha perna; tinha aquilo.

Não foi além; parou por ali e... Sumiu. Silêncio. Contudo, o pequeno hiato só permitiu que eu tomasse um gole de ar e dois “tiques” do relógio; o indefinível logo tomou-me de assalto, pelas costas. Ah, o silêncio! Mera ação diversiva.

Baixara a guarda, de fato, e a punhalada pegou-me de surpresa. Adaga romântica, que nada; foi uma seringa na décima vértebra. A agulha – de uma temperatura indecifrável – injetou-me um quê de inverter o sangue. Engoli em seco. Quase caí para a direita – detalhes sonoros...

Tomadas por aquilo, minhas células vibraram, ferveram, se desencontraram. Eu era todo caos. Cambaleei novamente, e senti, pela primeira vez no mês, o sol da manhã. Olhei para o céu e depois para mim; vi que amava. Amava?

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Pressa

Já tiveste a senhora uma pressa às avessas? Pressa... Aquela ânsia de movimentar-se largo e veloz enquanto se espera um tropeço do tempo. Não, não é dessa que estou falando. Falo daquela de quase querer dormir enquanto o tempo se consome. Pressa elástica, com cheiro de borracha. É a pressa do preguiçoso, não do trabalhador. Em vez de segurar o relógio, empurrar os ponteiros; acordar no dia seguinte e aterrorizar-se com a idéia de que apenas um dia passou. Já tiveste, senhora, uma pressa dessas?

Aposto que sim. Sei que já desejaste saltar cinco anos no tempo. Tenho certeza de que ao menos uma vez te apressaste para abandonar o vazio de um amor perdido. Não para tapar o buraco, mas para ser coberta por ele. Dormir lá embaixo, isolada do céu e do vento, até renascer eras depois, assim como semente mal plantada. É, querida senhora, cada uma de tuas rugas deixa transparecer os anos em que te anulaste, ansiosa por um não-sei-o-quê milagroso.

Mas bem sei que o milagre não veio. A dor permanece, e a pressa aumenta a cada dia. Cinco já não bastam; agora queres que em uma noite passem dez anos, até que o sofrimento desista. Amanhã pedirás por 15, 20, 30... Até que não sobrem mais anos.

Até que não sobrem mais anos. Tens medo, eu sei. É que todas as pressas levam ao mesmo caminho. Umas resistem, e se desesperam para segurar os ponteiros. Outras – como a senhora – arrastam-se pela estrada, acompanhando de longe seus próprios cortejos fúnebres. Embora reconheçam seus rostos nos caixões, não hesitam em continuar; entoam cânticos aflitos e esperançosos. Mas o milagre não vem.

O que levarás, senhora, desta vida que ora te interpela? O que levarás, além do xale de luto e dois ou três sorrisos esmaecidos? Algo mais do que aquela meia dúzia de cartas nunca escritas? Quatro beijos frios? Um porta-retratos roubado?

Ah, senhora, que triste inventário terás de fazer! Trancada no quarto, nos últimos momentos, irás saborear a glória ida e apodrecida. E então, finalmente, apressado ou não, o tempo baterá à porta. Será chegada a hora de pagar os juros de anos e anos dessa estranha e insistente pressa. A moeda? Tristeza, saudade, solidão e, principalmente, uma insuportável sensação de arrependimento.

quarta-feira, outubro 12, 2005

No ônibus

Veja bem, o senhor. O olquimém é a pior coisa que existe no mundo; tira o silêncio da gente. Mas o olquimém não tem culpa; o coitado não tem vontade de fazer barulho. O pior são as pessoas. É, aquelas que acham que o silêncio é insuportável. Coisa de gente de idéia curta... Elas falam e falam sobre um e outro assunto sem ter mesmo vontade de falar - acho - só porque o vazio de som tem que ser preenchido. Aí, quando não têm com quem trocar palavras que nem peteca, inventam o olquimém. Pois é, acho que foi algum desses seres que habitam os salões de beleza que inventaram o olquimém. Pois o senhor sabe, não há lugar no mundo em que o silêncio seja mais proibido que no salão. O próprio ar parece que pede que você fale do tempo, ou do Vale a Pena Ver de Novo que sempre está no ar nas velhas tevês de 14 polegadas. E não é? Veja bem, o senhor. Tem a manicure que fica no cantinho, encostada na parede; uma dúzia de senhoras de cabelos pintados se revezam - duas ou três de cada vez - no visitar o salão sem motivo prático; aí tem os funcionários mesmos, aqueles que cortam o nosso cabelo: geralmente um viado e o resto mulheres também de cabelo pintado. De vez em quando tem o filho de alguém, mas aí não é regra. O que é importante, que, se o senhor não notou, ainda há de perceber, é que esse povo todo se posiciona de uma forma que você não pode se esconder. Quer dizer, pra onde você olha tem alguém olhando de volta, ávido pra esculhambar com seu silêncio. Por isso os espelhos tão grandes... Mas então? Eu digo, é em formação que eles ficam; quase que militar.

E o senhor deve de estar se perguntando: e o olquemém? Pois eu digo ao senhor. Pra mim não tem coisa mais desperdiçada que colocar olquemém durante viagem. Nossa, mas quanto de música que se gosta! Peraí, eu gosto de música e dança - o senhor mal não me entenda - mas é que o olquemém não existe por causa da música, o senhor convenha. A música e o rádio é pretexto pra machucar o silêncio e anular o pensar da gente. Pra quê, eu pergunto? Pra que eu vou me largar de pensar no monte de idéia que só tem a chance de ser pensada quando a gente tá de viagem? Em trânsito é que meu cérebro funciona melhor. É por isso que gosto de viagem longa, no lombo do ônibus ou da barca. Sem engarrafamento, claro. Porque, veja bem, engarrafamento não faz parte da viagem. Porque o estar parado querendo ir pra algum lugar não faz bem pra cabeça, só dá ansia de chegar mais rápido, não de pensar. Porque eu vejo a viagem como a ausência do tempo. Eu não entendo bem dessas filosofias, o senhor me desculpe, mas nas minhas viagens o tempo não existe, e pra isso o ônibus tem que estar se movendo. Quando o bichinho tá andando, é o vento no rosto que serve de mensageiro, e diz: "Senhor passageiro, suspendemos o tempo pra que o senhor possa se pensar um pouquinho. Aproveite a viagem". Mas aí a gente chega em Cascadura ou outra boca de garrafa dessas que tem nesse Rio de Janeiro, e o ônibus pára. Ah, não, aí o vento pára de também, e o relógio volta a correr. "Que horas devem ser?" - aí já era. Perdeu-se. Aí eu até aceito um olquemém.

Mas eu já tô digavando. O senhor me desculpe, eu só tô explicando porque devolvo o olquemém do senhor. Não quero isso não. E se eu fosse o senhor jogava fora ou fazia que esquecia dentro do salão de beleza. Esse negócio não faz bem pra cabeça da gente não. Ainda mais nessa cidade, eu digo. Por quê? O senhor veja, o que é mais irônico de tudo, e engraçado. Engraçado pra mim, porque o senhor não vai gostar de escutar. O senhor veja, o olquemém te tirou o silêncio, e além disso não deixou o senhor ouvir eu chegando. Se o senhor não tivesse de olquemém no ouvido, já tinha descido do ônibus, e agora não tava sendo roubado. Não, não quero esse troço não. Pode ficar. Até mais!

quinta-feira, setembro 29, 2005

Interditado

Esse blog está morto. Até segunda ordem.

terça-feira, agosto 23, 2005

Puft!

Era só a Mariazinha começar a pular corda que - puft! - ela desaparecia; deixava a mãe louca. "Mariazinha, o almoço está p... Oh, não. De novo?". Essa frase se repetia sempre, mas é claro que com algumas variações. Às vezes era a janta que estava p... ou então a Mariazinha tinha que estud... O que permanecia constante, posto que bizarro, era que quando a Mariazinha começava a pular corda, ela - puft! - desaparecia.

Pra onde ia, essa menina? A mãe já se perguntara isso várias vezes. Coitada; se nem eu sei - e olhe que sou eu que estou inventando essa história -, imagina a mente simplória e sem imaginação da mãe. Sem poder entender, e encarando aquilo como um ato de rebeldia da filha, lhe restava odiar a maldita corda. Se ela pudesse se livrar da maldita corda! Mas a filha adorava a maldita corda. A mãe estava lendo jornal, e estava lá a Mariazinha com a maldita corda. De repente - puft! - some a Mariazinha. Assim não dá, Marcelo (era o pai), essa menina tem que ir pro psicólogo. E o Marcelo ria.

O Marcelo ria mas a mãe se descabelava. E a Mariazinha, tadinha, não queria saber de nada. Ela só queria pular corda e - puft! - desaparecer. Isso a fazia tão feliz!

Não pensem vocês - que vivem pensando - que a Mariazinha era uma maníaca obsessiva-compulsiva mirim. Não senhores. A Mariazinha era uma das melhores na escola, e ninguém vencia ela na peteca e no queimado. Sem contar no pique-esconde, claro. Ela era uma garota como qualquer outra, tirando o fato de - puft! - desaparecer de vez em quando.

Vocês já devem estar adivinhando que, depois de quatro parágrafos de - puft! - desaparecimentos, a mãe já deva estar furiosa. Transbordando. E está, de fato. Aliás, nesse exato momento ela está no quarto da filha procurando a maldita corda. E ela está com uma faca de cozinha e um saco de lixo nas mãos.

Não preciso descrever a cena, não é? Aliás, acho que também não preciso descrever a tristeza da Mariazinha quando chegou em casa e - puft! - a sua tão querida corda havia desaparecido.

sábado, julho 02, 2005

Por quê?!

Foi o Daniel que fez a observação: "Calma, cara! Pra que subir correndo?", ou algo parecido com isso.

Porra; epifania.

Eu só subo escadas correndo. E desço também, mas descer correndo é muito fácil; a gravidade praticamente implora pra gente fazê-lo. Subir é outra coisa. Você só sobe rápido se for urgente; pra ir ao banheiro ou algo assim. Mas eu não consigo subir nenhuma escada sem ser correndo.

É claro que em escadas desconhecidas eu não tenho tamanho atrevimento. As escadas não gostam que você saia correndo em cima de seus degrauzinhos, a não ser que o relacionamento já seja longo e a cumplicidade entre os pés e os pisos já esteja estabelecida. Em suma: não corro na escadaria do Theatro Municipal, por exemplo, mas, por outro lado, não subo a escada da minha casa a menos de 60 quilômetros por hora.

Pois é, taí o fato. Mas e a causa? Aceito opiniões...

terça-feira, junho 21, 2005

Negócios

- Hmm, será que é por aqui mesmo?
Fazia muito tempo que o Diabo não subia até o Paraíso; sua memória já não era a mesma desde que ele inventou de fundar uma igreja própria e ir gabar-se dela para Deus. Contudo, o caminho estava certo, e, esperto como ele só, Lúcifer entrou novamente pelo velho atalho construído eras atrás. Ele odiava ter que passar por São Pedro; "aquele velho babão", murmurava enquanto subia a lodosa escadaria até a morada do Senhor.
- Lúcifer. Para que viestes a Mim? Não quero ouvir vossas estapafúrdias idéias hoje; estou com dor de cabeça.
- Que nada, Jeová! Venho a negócios... – O Diabo trazia aquele inconfundível sorriso de malícia que ele tão bem ensinara aos homens.
- Ora, essa é boa! E Eu lá trato de negócios convosco?
- Como não, se o acordo Vos é extremamente vantajoso?
- Ah, é? O bondoso demônio veio correndo oferecer-Me benefícios sem conta? – O sorriso irônico que ora se desenhava no canto da boca do Senhor também fora invenção de seu anjo caído, mas Ele gostara tanto que acabou adotando-o para si.
- Por que não? As práticas mercantis têm me ocupado o tempo; na Terra não precisam mais de mim.
- E desde quando Lúcifer conhece as artes do comércio?
- Ah, sim. Recebi há algum tempo no Inferno um libanês, alma avaríssima, que me ensinou algumas coisas. Em troca eu lhe aliviaria um pouco os tormentos. Pechincha vai, barganha vem, e o safado hoje está no Purgatório. Sim, fui logrado; mas aprendi muito.
- Então viestes lograr-Me também?
"Droga!", pensou o Diabo. "Deveria ter passado mais tempo com o libanês".
- Er... Claro que não. Por acaso árabes artimanhas podem vencer a sua onisciência?
- Por que não vais direto ao assunto? Está quase na hora da novela.
- Ah, sim, claro. Venho oferecer-Vos sessenta e cinco mil almas condenadas. E não é tudo o que tenho em estoque; esse é apenas o pacote promocional. Fiz um estudo de marketing, veja: é o nosso folder.
- Que bonito esses anjinhos dourados na moldura desse... Folder, não é?
- Sim, sim! Tenho uma excelente equipe de comunicação visual e publicidade. Os melhores do mercado.
- Estou impressionado.
- E ainda não vistes nada! Como sabeis, beleza não põe mesa, então de nada adianta um belo folder se a oferta não for de qualidade.
- Sessenta e cinco mil almas... "Começai a pagar daqui a 3.800 anos"?
- Não é espetacular? Além disso, se assinardes esse plano promocional, tereis 40% de desconto nos cinco próximos pacotes; pagos no cartão de crédito.
- Bem, até que é...
- É divino, eu diria! Com a vossa licença, é claro.
- Mas quem são essas almas?
- Ora, Senhor! Qual a diferença? Não são todos Vossos filhos?
- São, mas...
- Pois então! Informai-me o número do seu cartão de crédito, identidade, CPF... Não, peraí: Deus tem CPF ou CNPJ?
- Hmm, não sei não. Gabriel Me mandou um e-mail ontem alertando contra esse tipo de negócio, fácil demais.
- Tendes e-mail? Que maravilha! Então também podeis efetuar o pagamento pela internet, no site de qualquer banco multinacional da Terra; as sedes dessas instituições estão todas no Inferno.
- A novela está começando...
- Assinai aqui então, e ide ver a novela. Eu não vi ontem. O que aconteceu?
- Caio Roberto finalmente descobriu que é irmão de Beatriz.
- Bom, já estava mais do que na hora.
- É, mas eu achei desnecessário mostrarem aquelas cenas incestuosas; mesmo que inconscientemente, eles...
- Assinai, Senhor, assinai! Eu também quero ver esse capítulo.
- Está bem, Lúcifer. Eu assino. Mas, se Me enrolardes, entregardes uma alminha a menos, ou com defeito, vós sofrereis a Minha terrível ira.
- Que assim seja.
- Pronto. Ide; aproveitai que entraram os comerciais agora.
- Não vos arrependereis. Adeus.
Dessa vez o Diabo fez questão de sair pelo portão da frente. Puxou as barbas de São Pedro, roubou a corneta de um querubim e chutou a canela de um ancião que ali chegava. Ele não podia estar mais feliz.
- Otário! Nem leu o contrato. Bem que o Roberto Marinho me disse: "É só chegar na hora da novela, meu amigo. É só chegar na hora da novela..."