quarta-feira, outubro 12, 2005
No ônibus
E o senhor deve de estar se perguntando: e o olquemém? Pois eu digo ao senhor. Pra mim não tem coisa mais desperdiçada que colocar olquemém durante viagem. Nossa, mas quanto de música que se gosta! Peraí, eu gosto de música e dança - o senhor mal não me entenda - mas é que o olquemém não existe por causa da música, o senhor convenha. A música e o rádio é pretexto pra machucar o silêncio e anular o pensar da gente. Pra quê, eu pergunto? Pra que eu vou me largar de pensar no monte de idéia que só tem a chance de ser pensada quando a gente tá de viagem? Em trânsito é que meu cérebro funciona melhor. É por isso que gosto de viagem longa, no lombo do ônibus ou da barca. Sem engarrafamento, claro. Porque, veja bem, engarrafamento não faz parte da viagem. Porque o estar parado querendo ir pra algum lugar não faz bem pra cabeça, só dá ansia de chegar mais rápido, não de pensar. Porque eu vejo a viagem como a ausência do tempo. Eu não entendo bem dessas filosofias, o senhor me desculpe, mas nas minhas viagens o tempo não existe, e pra isso o ônibus tem que estar se movendo. Quando o bichinho tá andando, é o vento no rosto que serve de mensageiro, e diz: "Senhor passageiro, suspendemos o tempo pra que o senhor possa se pensar um pouquinho. Aproveite a viagem". Mas aí a gente chega em Cascadura ou outra boca de garrafa dessas que tem nesse Rio de Janeiro, e o ônibus pára. Ah, não, aí o vento pára de também, e o relógio volta a correr. "Que horas devem ser?" - aí já era. Perdeu-se. Aí eu até aceito um olquemém.
Mas eu já tô digavando. O senhor me desculpe, eu só tô explicando porque devolvo o olquemém do senhor. Não quero isso não. E se eu fosse o senhor jogava fora ou fazia que esquecia dentro do salão de beleza. Esse negócio não faz bem pra cabeça da gente não. Ainda mais nessa cidade, eu digo. Por quê? O senhor veja, o que é mais irônico de tudo, e engraçado. Engraçado pra mim, porque o senhor não vai gostar de escutar. O senhor veja, o olquemém te tirou o silêncio, e além disso não deixou o senhor ouvir eu chegando. Se o senhor não tivesse de olquemém no ouvido, já tinha descido do ônibus, e agora não tava sendo roubado. Não, não quero esse troço não. Pode ficar. Até mais!
quinta-feira, setembro 29, 2005
terça-feira, agosto 23, 2005
Puft!
Pra onde ia, essa menina? A mãe já se perguntara isso várias vezes. Coitada; se nem eu sei - e olhe que sou eu que estou inventando essa história -, imagina a mente simplória e sem imaginação da mãe. Sem poder entender, e encarando aquilo como um ato de rebeldia da filha, lhe restava odiar a maldita corda. Se ela pudesse se livrar da maldita corda! Mas a filha adorava a maldita corda. A mãe estava lendo jornal, e estava lá a Mariazinha com a maldita corda. De repente - puft! - some a Mariazinha. Assim não dá, Marcelo (era o pai), essa menina tem que ir pro psicólogo. E o Marcelo ria.
O Marcelo ria mas a mãe se descabelava. E a Mariazinha, tadinha, não queria saber de nada. Ela só queria pular corda e - puft! - desaparecer. Isso a fazia tão feliz!
Não pensem vocês - que vivem pensando - que a Mariazinha era uma maníaca obsessiva-compulsiva mirim. Não senhores. A Mariazinha era uma das melhores na escola, e ninguém vencia ela na peteca e no queimado. Sem contar no pique-esconde, claro. Ela era uma garota como qualquer outra, tirando o fato de - puft! - desaparecer de vez em quando.
Vocês já devem estar adivinhando que, depois de quatro parágrafos de - puft! - desaparecimentos, a mãe já deva estar furiosa. Transbordando. E está, de fato. Aliás, nesse exato momento ela está no quarto da filha procurando a maldita corda. E ela está com uma faca de cozinha e um saco de lixo nas mãos.
Não preciso descrever a cena, não é? Aliás, acho que também não preciso descrever a tristeza da Mariazinha quando chegou em casa e - puft! - a sua tão querida corda havia desaparecido.
sábado, julho 02, 2005
Por quê?!
Porra; epifania.
Eu só subo escadas correndo. E desço também, mas descer correndo é muito fácil; a gravidade praticamente implora pra gente fazê-lo. Subir é outra coisa. Você só sobe rápido se for urgente; pra ir ao banheiro ou algo assim. Mas eu não consigo subir nenhuma escada sem ser correndo.
É claro que em escadas desconhecidas eu não tenho tamanho atrevimento. As escadas não gostam que você saia correndo em cima de seus degrauzinhos, a não ser que o relacionamento já seja longo e a cumplicidade entre os pés e os pisos já esteja estabelecida. Em suma: não corro na escadaria do Theatro Municipal, por exemplo, mas, por outro lado, não subo a escada da minha casa a menos de 60 quilômetros por hora.
Pois é, taí o fato. Mas e a causa? Aceito opiniões...
terça-feira, junho 21, 2005
Negócios
Fazia muito tempo que o Diabo não subia até o Paraíso; sua memória já não era a mesma desde que ele inventou de fundar uma igreja própria e ir gabar-se dela para Deus. Contudo, o caminho estava certo, e, esperto como ele só, Lúcifer entrou novamente pelo velho atalho construído eras atrás. Ele odiava ter que passar por São Pedro; "aquele velho babão", murmurava enquanto subia a lodosa escadaria até a morada do Senhor.
- Lúcifer. Para que viestes a Mim? Não quero ouvir vossas estapafúrdias idéias hoje; estou com dor de cabeça.
- Que nada, Jeová! Venho a negócios... – O Diabo trazia aquele inconfundível sorriso de malícia que ele tão bem ensinara aos homens.
- Ora, essa é boa! E Eu lá trato de negócios convosco?
- Como não, se o acordo Vos é extremamente vantajoso?
- Ah, é? O bondoso demônio veio correndo oferecer-Me benefícios sem conta? – O sorriso irônico que ora se desenhava no canto da boca do Senhor também fora invenção de seu anjo caído, mas Ele gostara tanto que acabou adotando-o para si.
- Por que não? As práticas mercantis têm me ocupado o tempo; na Terra não precisam mais de mim.
- E desde quando Lúcifer conhece as artes do comércio?
- Ah, sim. Recebi há algum tempo no Inferno um libanês, alma avaríssima, que me ensinou algumas coisas. Em troca eu lhe aliviaria um pouco os tormentos. Pechincha vai, barganha vem, e o safado hoje está no Purgatório. Sim, fui logrado; mas aprendi muito.
- Então viestes lograr-Me também?
"Droga!", pensou o Diabo. "Deveria ter passado mais tempo com o libanês".
- Er... Claro que não. Por acaso árabes artimanhas podem vencer a sua onisciência?
- Por que não vais direto ao assunto? Está quase na hora da novela.
- Ah, sim, claro. Venho oferecer-Vos sessenta e cinco mil almas condenadas. E não é tudo o que tenho em estoque; esse é apenas o pacote promocional. Fiz um estudo de marketing, veja: é o nosso folder.
- Que bonito esses anjinhos dourados na moldura desse... Folder, não é?
- Sim, sim! Tenho uma excelente equipe de comunicação visual e publicidade. Os melhores do mercado.
- Estou impressionado.
- E ainda não vistes nada! Como sabeis, beleza não põe mesa, então de nada adianta um belo folder se a oferta não for de qualidade.
- Sessenta e cinco mil almas... "Começai a pagar daqui a 3.800 anos"?
- Não é espetacular? Além disso, se assinardes esse plano promocional, tereis 40% de desconto nos cinco próximos pacotes; pagos no cartão de crédito.
- Bem, até que é...
- É divino, eu diria! Com a vossa licença, é claro.
- Mas quem são essas almas?
- Ora, Senhor! Qual a diferença? Não são todos Vossos filhos?
- São, mas...
- Pois então! Informai-me o número do seu cartão de crédito, identidade, CPF... Não, peraí: Deus tem CPF ou CNPJ?
- Hmm, não sei não. Gabriel Me mandou um e-mail ontem alertando contra esse tipo de negócio, fácil demais.
- Tendes e-mail? Que maravilha! Então também podeis efetuar o pagamento pela internet, no site de qualquer banco multinacional da Terra; as sedes dessas instituições estão todas no Inferno.
- A novela está começando...
- Assinai aqui então, e ide ver a novela. Eu não vi ontem. O que aconteceu?
- Caio Roberto finalmente descobriu que é irmão de Beatriz.
- Bom, já estava mais do que na hora.
- É, mas eu achei desnecessário mostrarem aquelas cenas incestuosas; mesmo que inconscientemente, eles...
- Assinai, Senhor, assinai! Eu também quero ver esse capítulo.
- Está bem, Lúcifer. Eu assino. Mas, se Me enrolardes, entregardes uma alminha a menos, ou com defeito, vós sofrereis a Minha terrível ira.
- Que assim seja.
- Pronto. Ide; aproveitai que entraram os comerciais agora.
- Não vos arrependereis. Adeus.
Dessa vez o Diabo fez questão de sair pelo portão da frente. Puxou as barbas de São Pedro, roubou a corneta de um querubim e chutou a canela de um ancião que ali chegava. Ele não podia estar mais feliz.
- Otário! Nem leu o contrato. Bem que o Roberto Marinho me disse: "É só chegar na hora da novela, meu amigo. É só chegar na hora da novela..."
quarta-feira, junho 08, 2005
Privacidade genética
A animada conversa estacou de súbito, e o Moreira, que falava com seu cachimbo na boca, engasgou com a fumaça. Imagino que engasgar com fumaça não seja possível, mas também não é possível que um coronel do exército epiléptico imaginário fume cachimbos, então não apago a frase. Pois sim, o Moreira engasgou com a fumaça; ela ficou atravessada na sua garganta, assim como as duas faixinhas rosas do teste de gravidez que F.D. segurava na mão ficaram atravessadas no seu olhar.
- O que é isso? - perguntou o Buiú. O Moreira tossia.
- Estou grávida. - A pobre F.D. tinha os olhos cheios d'água.
- Grávida? Er... Parabéns?. - Nesse ponto a pobre F.D. desatou a chorar, e o seu pranto formou uma harmonia musical com a tosse do Moreira, produzindo uma grotesca sinfonia. O Buiú, parece, não era muito chegado a música erudita contemporânea, pois logo interrompeu a apresentação com uma voz alterada:
- Você não querendo dizer que...
- Você é o pai, Buiú! Quem mais poderia ser? - A pobre F.D. estava exasperada com a reticência do ficante. Ela esperara um pouco mais de compreensão.
- Eu?! Impossível! Sempre tomei providências para...
- E daí? Aqui está a prova! Veja, duas faixinhas rosas! Positivo! - A conversa começava a chamar um pouco a atenção, pois F.D., se já falava alto normalmente, imagina numa situação dessas.
E o Moreira ainda tossia.
- Ora, bolas! É a prova de que você está grávida! Ou por acaso essas faixinhas formam o meu nome em letras bastão?
O Buiú não deixou de sentir um certo orgulho pela piadinha espirituosa, mas o bom senso, escondido em algum lugar da sua alma, mexeu os pauzinhos para que ele não sorrise e fizesse aquela cara de "Que genial!". F.D. não podia acreditar em tamanha cafajestagem. E o Moreira nem ouviu a piada, pois ainda tossia como um tuberculoso.
- Buiú, eu não acredito. Você, além de se eximir de responsabilidade, ainda está insinuando que eu...
- Eu não estou insinuando coisíssima nenhuma. Todo mundo sabe. E depois, não somos nem namorados, então qual o problema?
- Então tá Buiú. - A raiva de F.D. agora se misturava com um pouquinho de embaraço. Além da tosse do Moreira, poderia-se ouvir alguns risinhos zombeteiros. - O teste de DNA vai dizer se eu estou certa ou não.
- Não vai não.
- Como?
- Não vai não. - O Buiú sacudia firmemente a cabeça, enfatizando bastante as palavras. Enquanto isso, batia forte nas costas do Moreira, que ainda não parara com o acesso de tosse. - Me recuso a fazer esse teste. É um absurdo! - Ele agora estava de pé, e gesticulava muito. - Esse teste é uma violação da minha privacidade genética. Imagine se eu vou deixar as minhas adeninas e guaninas à mostra. De jeito nenhum!
E o Buiú não parou de falar por um bom tempo. Exaltado, esbravejou contra a medicina, a sociedade, o Estado e a Igreja. Meteu até Gilles Deleuze no meio, repetindo mil vezes que esse teste era a Sociedade de Controle por excelência. Ele falou tanto, e estava tão alterado, que nem percebeu o Moreira se tremelicando todo no chão, no meio de outro ataque. E a pobre F.D. ficou lá, de olhos arregalados e boca aberta. "Quem é esse tal de Deleuze? Um ginecologista?", se perguntava a coitada.
quinta-feira, maio 26, 2005
Enchendo lingüiças
Algumas das coisas inteligentes que eu lembro de ter ouvido recentemente:
"Foi o Elifoot que acabou com o botão". (OBS: Essa só entende quem foi adolescente - do sexo masculino - em meados da década de 90. É necessário ressaltar: adolescente normal, na média; daqueles com vírgula depois do número)
"Que tal apertar o 'power'?".
"Que caneta? Essa que está na sua mão?".
"Vvvooommmm..." (Onomatopéia: sabres de luz do Star Wars)
"Foi um morcego; cocô de pombo não é assim".
sexta-feira, maio 13, 2005
Preparação
"Quinta-feira XII?!". Não, não foi o cavalo que perguntou; foi o Moreira mesmo. "Sim, Moreira! É na quinta-feira, número 12, que reside o Azar e toda a sua família". Buiú abriu um parêntese, meteu um sorriso de "gostei da minha própria metáfora" lá dentro, fechou o parêntese, e continuou (o cavalo parecia então mais atento do que nunca): "Moreira, você acha que tudo acontece instantaneamente, da noite pro dia, do nada? Você é veterano de guerra, sabe muito bem que o resultado de uma batalha só vem depois de dias de preparação". Buiú estava empolgadíssimo, e nem percebeu o esboço de protesto de seu amigo imaginário. "Da mesma forma, a tijolada na cabeça não acontece de uma hora pra outra. Com certeza foi na quinta-feira 12 que um pedreiro idiota deixou o tijolo na borda do andaime. Não na sexta-feira 13, porque, na sexta-feira 13, o idiota do pedreiro toma todo o cuidado do mundo para que não aconteça uma fatalidade". Ao dizer isso, o Buiú deu uma olhadela pro alto de novo, e, estando o céu limpo de tijolos inopinados, lubrificou a garganta de poesia e arrematou: "Nem tudo é o que parece. Nem mesmo o próprio tempo". O Moreira ficou calado e pensativo; o cavalo parece que foi convencido, pois voltou a andar, tranqüilamente, por uns 100 metros. Logo teve que parar: o Moreira tivera outro ataque.
quarta-feira, maio 11, 2005
Conversa fiada
Para o Souza, essa pergunta caía muito bem em qualquer conversa fiada. Uma vez, no elevador: "Tá calor, não?". "Pois é. Qual a cor da sua cueca?". Todo papo-furado era a mesma coisa. Quando mudava o sexo do seu interlocutor, mudava o gênero da roupa íntima. Mas invariavelmente vinha pergunta, fosse no ônibus, elevador ou fila de banco. Era uma mania, aliás, e não sou eu quem diz isso. O próprio Souza dizia. Para você, leitor, que no momento ri - ou, no mínimo, balança a cabeça negativamente -, ele argumentaria: "Como vou saber a coloração da peça íntima de alguém sem perguntar? Pelo menos - na maioria dos casos - elas estão escondidas. O que é estranho, pra mim, são aquelas pessoas que perguntam do frio quando todos sabem que está frio. Estou errado?". Caso a fala fosse realmente do Souza - e não uma imitação zombeteira dos colegas de repartição - ainda teria aquele "Hein?" triunfal no final da frase. Se você ainda está rindo, é porque nunca ouviu aquele "Hein?".
Mas, de qualquer forma, não vou dizer que essa mania do Souza lhe rendeu amizades ou admiração; rendeu-lhe esse conto, ao menos. Póstumo. Pois sim, o Souza já partiu dessa pra uma melhor. Pobre Souza. No seu velório, fizeram-lhe um belo discurso, proferido pelo Freitas, da repartição. Sempre pensei que os discursos - quando haviam - eram feitos no enterro. Mas enfim, esse foi no velório. Ao fim de 5 minutos de verborragia alguns choravam; outros riam; a maioria fazia as duas coisas. O danado do Freitas mencionara a mania do Souza. Pobre Souza. Sempre pedira para ser enterrado com a bandeira do Brasil, que tanto amava. Meteram-lhe debaixo da terra com um punhado de cuecas.
segunda-feira, maio 09, 2005
Papo de segunda (feira)
O que há com o Botafogo? Três jogos, três vitórias. Se chegar na sétima - número cabalístico -acho que o mundo acaba.
Por falar de futebol...
Buiú, o universitário ocioso, voltava de São Januário na garupa do Moreira, que ia bastante irritado com a derrota do Vasco para Aquele Time. "O nosso center-for deveria jogar peteca, e não futebol!", esbravejava. "Calma, Moreira! Assim você vai ter outro ataque. E que diabos é center-for?!". Eles estavam na Avenida Brasil, já quase em Irajá, onde moravam. Engarrafamento. O Moreira embicou o garanhão pra faixa seletiva - valendo-se da sua alta graduação militar - e continuou reclamando, ignorando a pertinente pergunta. "Ah! Áureos tempos em que o Vasco da Gama era grande! Você é muito novo, não viu o que eu vi. Não viu as triangulações de Tetinho, Totinho e Madureira, nem as defesas felinas do Juliano Medeiros. Ah! Áureos tempos!". Buiú franziu a testa. "Moreira, o Vasco nunca teve jogadores com esses nomes. Aliás, provavelmente time nenhum teve". Buiú estava muito apreensivo. Assim que percebeu que o seu amigo imaginário começara a delirar, percebeu também que estava de carona com ele no meio da Avenida Brasil. Uma queda seria fatal. "E aquele center-for? Ah, o Marciano! Que center-for! Que jogadas!". E lá vinha aquela palavra esquisita de novo. "Porra, Moreira! O que é center-for? Presta atenção no trânsito!". "Sr. Buiú, o Marciano faria esse nosso center-for parecer uma mulherzinha perneta!". Então finalmente aconteceu: o Moreira teve outro ataque. Buiú só teve tempo de falar "merda!" antes de cair do cavalo, sem saber o que diabos era center-for.
quinta-feira, maio 05, 2005
Subterrâneo
sexta-feira, abril 29, 2005
"Mas Carolina não viu"
Carolina era loira, drogada e descrente. E muito. Já estava há exatos 436 dias no País das Maravilhas e ainda não acreditava em nada do que via. Agora mesmo, tinha acabado de dar os 65 dólares nas patas do Coelhinho Roxo, mas não estava nem aí. O dinheiro não faria falta mesmo. Afinal, o que não existe não faz falta. "Peraí, há quem diga o contrário", protestou o Coelhinho Roxo. Ele tinha a péssima mania de ler os pensamentos da Carolina. "Por favor, sem intimidades filosóficas. Dê-me o troco, ande". "Que troco, Carolina?". "Ora bolas! Você me deve 1 dólar e 75 centavos!". "Carolina, você já é uma viciada terminal. Faça-me o favor de olhar com mais atenção a minha tabela de preços", respondeu o Coelhinho, impaciente. Ele havia tirado um pequeno e amarelado papel do bolso do paletó, e estendia-o para ela. Carolina pegou, olhou e tirou o arzinho metido da cara. Foi embora. Para onde? Para o primeiro parágrafo.
Pois então. À frente da Carolina estava a tão procurada saída do País das Maravilhas. O problema era que nas suas mãos havia a entrada para o País das Maravilhas. Era como se estivesse entre dois espelhos, portanto a confusão da coitada seria bastante compreensível. Seria. Verbo "ser" conjugado na terceira pessoa do singular do futuro do pretérito do indicativo. Carolina não estava confusa. Aliás, Carolina estava muito à frente dessas palavras aqui, pois ela já tinha injetado a droga há muito tempo. "Uhu!", já pensava ela enquanto eu digitava a metáfora dos espelhos.
terça-feira, abril 26, 2005
Do morango gigante e o coronel epiléptico
Buiú, o universitário ocioso, saiu pensativo da aula de marketing. "Está tudo errado com o morango", falou. "Nem a banana, a maçã ou qualquer outra fruta concorrente tem o potencial de consumo do morango. Ele é bonito, gostoso e, o melhor de tudo, tem uma marca forte. Não tenho dúvidas de que seja top of mind na cabeça do consumidor; o morango tem uma imagem associada à paixão, ao prazer e ao requinte; e nem é tão caro assim. Então a pergunta é: Por que se come mais maçãs e se toma mais Coca-Cola - pra falar de um concorrente indireto - do que se come morango?". Sua fisionomia era a daqueles discursantes que faziam perguntas retóricas como se fossem os últimos guardiães da resposta. Mas estavam cansados do fardo, e, orgulhosa e majestosamente, cediam o conhecimento à platéia ignorante.
O Moreira, que acumulava os títulos de coronel do exército epiléptico e de amigo imaginário, ajeitou-se na sua montaria, ereto e pensativo. "Deve ser a taxa de juros", arriscou despretensiosamente, coçando as dragonas enferrujadas. "Não, rapaz. Você anda lendo muito jornal. Se eu estivesse no Desenvolvimento de Produto, o morango seria líder de mercado". "Então o que é?", o Moreira agora coçava as suíças. "O morango..." - Buiú fez uma pausa para dramatizar - "... é muito pequeno, Moreira". O universitário encarava seu amigo, com um sorriso triunfante. Se ele tivesse um charuto, com certeza daria um tragada - também para dramatizar. "Não existe continuidade no consumo do morango. A pós-modernidade exige rapidez e dinamismo, e o morango não permite isso. É, como já disse, muito pequeno. As pessoas não querem ficar comendo morango que nem uva. Uva tudo bem, o diferencial dela é comer uma bolinha por vez. Mas o morango não; o morango deveria ser do tamanho de uma manga. Ou de uma jaca".
"Mas isso é absurdo!", protestou o militar. "Se Deus fez asim, é porque é melhor assim", acrescentou, mas com tanta segurança que eu me sinto tentado a colocar um ponto final no diálogo. O Moreira teria gostado disso, mas aí eu não corresponderia ao rigor jornalístico, porque o Buiú logo redargüiu: "Deus fez assim porque o seus anjos estudaram na Estácio! O morango foi feito para ser consumido a largas mordidas, meu amigo, e, se o Senhor tivesse o mínimo de... Droga. De novo, Moreira?". Buiú teve que parar a sua brilhante exposição; o Moreira tivera outro ataque e caíra do cavalo, se tremelicando todo no chão.
sábado, abril 23, 2005
Enquanto isso no quintal...
Corta. VEEERY Extreme close-up na sola do chinelo do Marquinhos:
"Meu Deus! Quanta gosma! Eu não vou comer isso neeem morta", desprezou ela. Ela desprezava tudo. "Ai, ai", gemeu ele. O negócio dele era gemer. "Ora, Orlando! Vai me dizer que esses diplópodes são tragáveis? Eeeca, acho que isso é o fígado dele!", desprezou. "Cala a boca e come, mulher", gemeu. "Orlando! Você está achando que eu sou um staphilococus ou algo assim?", desprezou. "Ai, lá vem de novo...", gemeu. "Eu sou um bacilo! E não um bacilo qualquer!", desprezou. "Lá vem a história da tuberculose...", gemeu. "Lembre-se que MEU pai serviu ao Bacilo de Koch!", desprezou. "Puta que pariu, nem posso mais comer em paz", gemeu.
Fade-out. THE END. Obrigado pelos 11 reais do ingresso, otário.
sexta-feira, abril 22, 2005
Momento boçalidade
b
b
b
UUUUUUU
"Us piqueno bdesce us grande". Lembrei dessa palhaçada "12 anos" outro dia. Morri de rir. Você, que está achando o título desse post muito adequado, deveria rir também. O título é pra você. Mas a piada também.
Diálogo improvável
domingo, abril 10, 2005
Driblar ou dibrar?
Devia estar em Niterói nesse momento, mas estou aqui firulando. Droga. Ponto.
