sexta-feira, julho 03, 2009
Dedicatória
Antes de você.
Sorry, é assim que deve ser
Quero também te despir
Antes que você perceba.
O resto é inconfessável:
Páginas de livro são puras donzelas
Não podem ouvir
Nossas ardentes selvagerias.
sexta-feira, maio 22, 2009
Estrela-do-mar
As prendas nos cabelos
São selos
Libelos
Arrancados de um mar de silêncio, de dor, de
Inevitável
O mar é inevitável
Ninguém escolhe a onda que quebra
Ao lado da cama
Só há o desespero
Única palavra permitida
Que pode
E deve
E o faz
Diz: 'eu existo'
No oceano dela
Barcos não enferrujam
Nem navegam
Ninguém mergulha
Nada
Pesca
Não há peixes. Não há peixes
Nela só se naufraga
E se afoga
E tudo se transforma
Em corais.
De todas as cores
Crustácea vida
Salgada e formosa
Impressão de mar sem fim
O mundo é o que é
Ela é a prova do mundo
E eu gosto dela
sexta-feira, fevereiro 13, 2009
Descompasso
filho da mãe!
Tudo volta sempre, mãe, e era pra você estar aqui e me explicar por quê. Por quê? Por que eu não saio do lugar mesmo andando rápido, gastando a sola do tênis que já cansou de andar até antes das minhas pernas, por que minhas pernas são finas e mesmo compridas não acompanham a rotação da Terra, essa bola azul que gira somente rápido o suficiente para me deixar pra trás, e eu sem nem saber o que dizer praquela gente que passa e
Por quê?
Eu sempre canso de pensar nessas coisas, então resolvo viver, pois, ao contrário do que pensam, não é tão difícil assim, e até traz felicidade, se você for um bom menino. Tento amar, trabalhar, me exercitar 3 vezes por semana e me tornar mediocremente grande - ou um grande medíocre - e ficar satisfeito com isso. Mas o que acho, mãe, que tenho que fazer é ir na fábrica e encomendar o mais rápido carro que já se construiu; assim espero fugir do maldito falso mendigo que me espreita, e tentar quem sabe acompanhar a rotação da Terra e das pessoas, e perguntar "e aí, gente? giramos! giramos juntos, eu e vocês! vamos trocar uma idéia!", e quem sabe de uma hora pra outra passar a ser aquele que dá conselhos em vez de os procurar em você, mãe, em vez de
Mãe,
Crescer é perceber que se está sozinho?
sexta-feira, julho 11, 2008
terça-feira, abril 22, 2008
Página n°161, frase n° 5
Tudo bem, são 3 frases, mas não acho que a Mariana vá brigar comigo por causa disso.
O livro é "A Brincadeira", de Milan Kundera, e não, ainda não cheguei nessa página. Aliás, nem comecei a ler, mas estava na beira da cama, ao alcance da mão, e isso basta para as regras da brincadeira.
Ah! A brincadeira de que falo é uma dessas coisas de socialização entre blogs, sei lá. É pra você escrever no seu blog a 5ª frase da página 161 do livro mais perto de você, e passar a brincadeira adiante. Tão divertido quanto inútil. Se bem que a frase destacada ali em cima é bem útil pra rapaziada. Prestenção, pessoal. Essas garotas não são moleza...
quinta-feira, janeiro 03, 2008
Decisão
terça-feira, outubro 30, 2007
Bárbara
Fel de bronze e ferro, cerra os olhos dos homens; lhes escancara a carne.
Intempestiva e inexorável,
da terra aos confins
leva seus lírios negros
E espolia-nos a todos. Flamejante o seu cabelo
em ruínas faz os olhares do mundo.
Passa com vento, chuva, fogo, sangue; e cheiro e caminhar de fêmea.
Indefesos, lhe chamamos selvagem. Que sitia e incendeia, vence nossas torres e bastiões. Carnificina-nos.
Leva seu ouro e sua prata, seus espólios manchados de gozo. Impõe um tributo silencioso, de respeito e gratidão ignóbil. Porque nos deixa vivos.
Sim, lhe somos gratos. Pois o único momento em que a Terra - essa coisa inanimada e burra - sabe-se viva é quando passa a devastação, e os campos só nos têm amizade quando lhes é ceifado o grão, com a foice sedenta de pescoços. Da mesma forma, nos vemos vivos, quase imortais, depois que ela se vai. É que da sua boca em disparada pinga o nosso sangue, espalhando-se por todos os cantos, e assim fazemos parte de tudo o que há.
domingo, outubro 21, 2007
Bandolim
Andança por uma tarde escurecida, valsa sem par, ourives da solidão. Toca assim o bandolim. Atesta-me a vastidão da planície deserta, faz-me ventar e ecoar num vale; dá-me frio.
Quem disse que às cordas importam as notas que vibram? A música é o espelho da vida: toda beleza é acidental, e solitária. Quando toca assim o bandolim, isolar-se é apenas aceitar.
domingo, outubro 14, 2007
Se quiseres, fica
É no cantinho de nossa humana visão que se escondem o nada e também os grandes tesouros. É como se nada de realmente belo pudesse ser visto e encarado de frente. As coisas que realmente valem a pena não se nos revelam, são teimosas e brincalhonas. Que mundos de possibilidades se abrem num simples toque entre duas pessoas! Os olhares são quase rudes perto da insinuação contida no comportamento de mãos quando se encontram, ou mesmo quando se soltam. É como se tudo na gente falasse abertamente, tagarela, por apenas um milésimo de segundo. "Ouvi isso mesmo?" Ah, quantas promessas perdem-se por aí, largadas no asfalto, porque não foram ouvidas essas vozes sem peso, sem ar? E quantas outras tornam-se uma ridícula decepção, pois eram apenas impressões, soltas, excesso e lixo de realidade?
Nunca dorme direito, quem observa o mundo desse jeito, com lentes de aumento. Está sempre indo do riso ao choro; num dia garimpa um diamante; noutro, colhe orgulho ferido. Mas nunca, nunca abre mão do seu modo peculiar de ver e viver. Não, não esquece. Essa pessoa não esquece aquele olhar subitamente desviado no domingo, ou aquela inexplicável momentânea timidez na despedida daquele sábado de verão. Não esquece jamais a mão que largou a sua, quem sabe a dizer: "se quiseres, fica a segurar-me, que estarei feliz".
quarta-feira, outubro 10, 2007
Uma carta
Por favor, me leia com atenção, e me dê a sua opinião.
Acabo de dar vazão a uma faceta muito sinistra minha. Enviei - trêmulo de prazer - um e-mail muito cruel e injusto para a Clarissa. Não acredito em metade do que escrevi e, principalmente, não acredito em absoluto no tom que dei às palavras. Foi um puro e simples exercício de crueldade. E também um exercício de autoflagelação.
Sim, porque, enquanto escrevia, desejava uma resposta tão cruel quanto, ou então a decepção total (que foi o que acabou acontecendo). O que leva um ser humano a deleitar-se com essas coisas, especialmente em se tratando da pessoa mais importante e amada da vida dele? Que mistério assustador. É aterrorizante saber que eu posso sim ser um monstro, um açougueiro psicopata; porque foi essa a sensação que tive; um eremita emocional, agressivo, de olhos injetados, e com uma boa dose de tragédia. Há uma literatice nisso tudo, quem sabe? Um desejo de superar a mediocridade e arenosidade da vida com situações dramáticas? É difícil para alguém como eu - cujo endereço é a lua - se deparar com o fato de que a vida não é um romance, e sim uma responsabilidade. Assim, fria e imperdoável. A vida verdadeira não dá margem a sentir pena de si mesmo. É uma governanta severa e boa, que quer o dever de casa feito antes de permitir que as crianças sentem à mesa da felicidade.
Será isso?
Estupefactamente,
Alexandre
segunda-feira, outubro 08, 2007
Bruna,
Isso aqui tem o poder absurdo de me acalmar o espírito. Você não tem noção da disparidade de ânimo causada, do "antes/depois" que foram alguns textos desse blog pra mim. Nem todos. Talvez eu os conte nos dedos.
Me permitindo algumas reflexões viajantes: talvez ter um blog sirva pra mesma coisa que ter um cachorro; ou gritar no Grand Canyon. Sei lá.
Não sou sentimentalista com a literatura não, e pra mim mágica não existe. Mas é inegável que esse negócio aqui às vezes faz os momentos de extrema solidão serem suportáveis. Solidão de todos os tipos: solidão por opção, por teimosia, por desespero. Passando por essa porta, é possível que evaporem, virem éter, um cheiro incômodo, uma poeira debaixo do tapete. Dá pra entender?
domingo, outubro 07, 2007
A navalha e a carne
Roda viva
Mas não é nem de recomeço que vim falar aqui. Eu sei na pele que a bendita linguagem e entendimento humanos inventaram a sensação de frescor de um reinício, da nova chance, do ano novo. Todos aqueles com idade acima de 1 ano conhecem bem a sensação. É uma concessão para jogar tudo embaixo do tapete e começar de novo. Começar a sujar e emporcalhar tudo de novo, os leitõeszinhos que somos (ou que podemos ser, pra não soar muito como um velho ranzinza que bate com a bengala em tudo o que é humano).
Mas pois. O fato é que a idéia de recomeço implica na idéia de circularidade. Como todos sabemos, círculos são redondos, circulares. Pois bem. Se tudo o que começa termina, por que o que o se renova não deveria também terminar? Acho que ninguém nunca pensou nisso, senão o Houaiss mostraria o termo "refim" entre a palavra "refilo" e o antepositivo "refin".
Baboseira, eu sei. Mas, cá pra nós, esse blog não é todo uma grande besteira, um "oco palavrório"?
Continuemos pois, a lamentação. Uma das muitas ironias dessa vida é que, ao mesmo tempo em que nossa visão cíclica das coisas nos dá alento, ela também nos afronta e exaspera, com a recorrente repetição de certas decepções e zombarias do destino. Porque, assim como uma moeda atirada dificilmente cairá em pé, a roda viva do mundo também tem a péssima mania de não ter lá muito equilíbrio em suas finas e atrofiadas pernas. O que está bem está suscetível ao desastre; o que está mal geralmente está tão cansado que prefere o ano novo chegar e trazer seus doces e suas pílulas milagrosas, como um Papai Noel doidão, vendedor de ácido lisérgico.
E assim sempre. Esse negócio de linearidade histórica acho que é um grande balela pra pensador vender livro. No fundo a gente ainda vê a existência como os antigos, e o tempo é uma grande bola de futebol, um bambolê, uma pizza giratória, um cachorro correndo atrás do próprio rabo, e quantas outras comparações circulares você quiser. Dizem as provas de física dos vestibulares: "desconsidere a resistência do vento e o atrito". Assim é a vida, nada pára o seu rodopio entediante, estonteante e - por que não? - às vezes inebriante. Giremos em torno de nossos próprios eixos, resignados, portanto. Ou isso, ou nada.
terça-feira, outubro 02, 2007
Paixão de ficção
Não acredito na Clarice Lispector quando ela diz que não sabe o rumo que suas histórias vão tomar quando começa a escrever. Sim, elas vão se desenvolvendo à medida em que as palavras são pintadas, mas isso não significa surpresa, por mais que a mente sonhadora do escritor goste de pensar que o personagem tem vida própria.
Não, a Hermínia do Lobo da Estepe é irresistível e suas palavras são mágicas só porque ela é mimada pelo autor. A amante tcheca de Franz - Sofia? Seu nome agora me escapa - é indomável pois todos os outros personagens do Kundera já foram domados por ele. Brás Cubas é tão irônico consigo mesmo porque não existe, e sua própria morte é uma farsa. E não acho que eu poderia conhecer um jagunço com a poesia simples de Riobaldo.
Poderia continuar com uma infinidade de personagens cujo espírito e dom da palavra são estelares. São todos uma grande gargalhada frente à mediocridade humana. Porque afinal, convenhamos, somos todos mentes medianas, com delírios de genialidade. Mesmo que a genialidade não seja nossa, e sim uma admiração pelo brilhantismo alheio, ainda assim ela é delirante.
Isso tudo pode ser muito triste. Porque jamais - e isso reconheço que é puro pessimismo - irei entrar em um bar alemão com pensamentos suicidas e encontrar uma formosa e misteriosa moça que, com sua perspicácia irretocável, irá soprar a cor de volta à minha vida. Nunca nunca uma mulher terá uma resposta na ponta da língua para cada pergunta minha, a ponto de me impressionar o espírito a ferro em brasa.
Ou será que essa mulher existe? Ela seria a perdição de qualquer homem na face da Terra. Ela e tantas outras personagens femininas da vasta imaginação humana. Nunca conheci ninguém de carne e osso que as superasse em mistério e brilhantismo. Já perdi a conta de mulheres que descobri apaixonantes com um simples cruzar de olhos, mas não é a mesma coisa. Nunca nenhuma delas me fez temer pela perdição da minha própria alma. Nem acho que eu jamais terei esse efeito sobre ninguém. Efeito esse que um mero espantalho descrito em caracteres impressos pode conseguir com um estalar de dedos do seu teatrinho inventado.
Ora, paciência. Enquanto isso vamos sonhando com o roçar nos nossos joelhos da saia de uma Hermínia ao levantar-se; com a beleza indizível de uma Helena; com a radiante sensibilidade aprisionada e incompreendida de mil putas solitárias e desprezadas da nossa literatura. É só o que podemos fazer, esticar os braços para alcançá-las e só encontrar o frio papel impresso nas gráficas desse mundo afora.
quinta-feira, setembro 27, 2007
sábado, setembro 22, 2007
Um retrato cretino da esperança
Voltou um tempo depois, e parou em frente à casa trancada. Sem ar que vibrasse as suas palavras, teve que passar um bilhete por baixo da porta. Avisava que demoraria mais um pouco, que era um imprevisto, que esperasse. Despedia-se com um beijo, cheio de promessas. Depois, fez queimar o bilhete, e a si mesma.
No bar às 21h
É mesmo? E o que você fez? Deu uma de homem sensível, né garanhão?
Não, fui bem sincero com ela. Que não existe essa história de metade faltando.
Ah, disse, foi?
Sim. Isso é balela. O que falta não chega a 40%.
Da série "Suspiros"
“Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão.”
Chico Buarque – As Vitrines
Efeita-se de mundos. Mentira ou ingenuidade, limitar seus adornos às gavetas da penteadeira, ao estojo de maquiagem. Até um sopro de vento e um vôo de pássaro enfeitam a mulher que intriga. Ela nasceu a mais filha das filhas da Terra. É tudo dela; se passa é o chão que a embeleza, e não menos o próprio ar que a perfuma.
sexta-feira, agosto 24, 2007
Bate outra vez
Estava lá Edinho, sozinho em sua poltrona favorita, de onde gostava de assistir aos filmes do Sergio Leone. "Esses italianos fizeram bangue-bangue melhor que os americanos, vê se pode". Vê se pode. Começara a sentir-se mal justamente na hora do duelo final entre o Bom, o Mau e o Feio. Aquela tensão toda, os olhos impávidos do Clint Eastwood, os olhos suados do Eli Wallach, os olhos de raposa do Lee Van Cleef. E os olhos pequenos e arfantes do Edinho. Close up nesses olhos, meu povo, como o diretor italiano fazia. O Edinho está agonizante.
Sim, se você me perguntar, eu admito que a vida do Edinho passou voando diante dos seus olhos. Mas ele não foi tão sortudo quanto nosso amigo Brás Cubas, que devia ter um karma importante o suficiente para que uma entidade primordial lhe mostrasse tudo o que houve, há e haverá com o Homem. Viu três ou quatro esporros que levara quando criança, uns cinqüenta gols do Fluminense, e intensas, muitas e variadas cenas de amor com sua esposa. De algumas ele nem participara. Estranho.
Estava sozinho em casa, leitor, então pare de querer chamar a atenção de alguém para socorrer nosso pobre amigo. A mulher está na casa de um amigo, estudando. Os filhos, sabe Deus onde. Pepe, o cachorro, não levanta nem para comer. A coisa está complicada.
E aqui a história pode tomar dois rumos diferentes. Eu posso aproveitar a morte - tão querida para as nossas literatices - e descrever os momentos finais do tricolor fã de faroeste. Quem sabe não saem até algumas reflexões de valor disso tudo? O Edinho é, afinal, um ser humano bastante singular em suas idéias e filosofias.
Mas o que eu acho - e o Edinho concordaria comigo - é que a história vai pegar uma carona no balão da fantasia, e salvar o nosso amigo. Pois basta alguns pequenos golpes do meu dedo nesse teclado para eu avisar ao Edinho que, na verdade, o que houve foi que o coração dele não está falhando. Só resolveu parar de trabalhar de graça. Não, esquece essa história de tecido muscular liso ou outras babosieras biológicas. Se quisesse viver, Edinho teria que se esforçar. Literalmente. Greve do miocárdio.
"Bate outra vez / Com esperanças o meu coração". Não pôde deixar de lembrar do Cartola, quando se viu salvo. Implicara sempre com ele, por parecer muito com o Ray Charles. Mas agora sentia uma espécie de gratidão. Daquelas sem sentido, pois o mangueirense de nariz de couve-flor nada teve a ver com isso. O ser humano não tem mesmo muita razão no sangue.
O que diabos estava acontecendo? Edinho sabia sim se surpreender com as coisas, e refletiu por alguns minutos. Logo desistiu. "Se eu for pensar muito na vida / Morro cedo, amor". Foi assaltado pelos versos do Nelson Cavaquinho. Ah, desse ele gostava mais. Parecia o Mestre Yoda, e o Mestre Yoda é muito mais legal que o Ray Charles.
Edinho foi vivendo muito bem com o seu coração assalariado, sindicalizado, CLTista. Recebia em ATP's, queima de energia, contração muscular voluntária; só não podia se aposentar. É claro que nem tudo era um mar de rosas. Todo mundo sabe que o Edinho sempre foi sedentário. E por causa disso teve princípio de infarto umas quinze vezes nas primeiras semanas. Sem contar que era difícil bater o coração e fazer outras tarefas ao mesmo tempo; quando se distraía, quase tinha um piripaque. Mas coordenar a intensidade e freqüência das sístoles e diástoles, isso que era o mais difícil. Os ajustes tinham que ser feitos a cada batida, de acordo com as necessidades emocionais ou físicas do corpo. Sexo, era complicado. Ficou uns quatro meses sem encostar na mulher. E ela, estudava na casa do amigo.
Mas aos poucos tudo foi se acertando. "O ser humano. Sensacional", ele dizia. Adaptou-se com perfeição, e gostava de dizer que era o melhor controlador de freqüência cardíaca do mundo. Virou um maratonista coronariano. Assoviava e chupava manga. Conhecia seu corpo como o roteiro de "Era uma vez no oeste": de cor e salteado. Aos poucos, foi tomando as rédeas do sistema imunológico, da digestão, do processamento de informação do cérebro. Doenças, não as tinha. Afinal, quando é que um corpo humano e seus linfócitos vão cercar bactérias e vírus com táticas militares? Edinho aposentara o autopiloto, e estava bem melhor assim. Já escreveram que o nariz serve para que cada um olhe para o seu próprio. Fundamental na constituição do ser humano, uma porta pra si mesmo. Pro Edinho isso era fichinha. O Edinho era-se todo transparente.
Mas aí um dia ele morreu. Bateu com o carro, coitado.
segunda-feira, agosto 20, 2007
O silêncio revelado
Ela cala porque calo
E assim ninguém pisa
Nos calos de ninguém
