domingo, abril 30, 2006

Coisas que só a chuva...

Hmm, sabe quando a gente pára no meio da rua e não tem mais certeza de que o que a gente pensa é a gente que pensa mesmo? Pois é, dura pouco, não é? São momentos raros e dolorosos, nos quais toda a nossa vaidade é posta à prova. No entanto, como ninguém é de ferro, nossa vaidade geralmente é à prova de balas. Dura pouco, então. Mas o suficiente pra manchar o funcionamento do cérebro durante o resto do dia. Faça uma tomografia depois de uma coisa dessas. Médico, pensativo, coça a careca: “Uma mancha roxa aqui... Roxa?!”.

Pois é. Mas no dia seguinte, passa. Sempre passa, talvez até antes disso. De repente, quem sabe, não tem mancha roxa nenhuma. Médico, sorridente, alisa as madeixas: “Senhor (a), nunca vi um cérebro em mais perfeitas condições.”. E você volta pra casa, ou pra conversa, e continua numa boa, soltando opiniões e, se você é dado a isso, até aforismos. A roda de bate-papo sorri, ou protesta, mas o resultado é sempre positivo. Não existe má verborragia, assim como não há má publicidade.

Mas olha só. O Totonho esperava o 267 debaixo de chuva. Que dia para ir à Cidade! Totonho era só apelido. Por mais que a criatividade brasileira para corte e colagem de nomes seja fascinante, ela tem os seus limites. Totonho é apelido de Antônio, carioca, carpinteiro, 42 anos. Esperava o ônibus, e refletia sobre o noticiário, com o cabelo grisalho encharcado, caindo-lhe sobre a sobrancelha. Tinha toda uma série de opiniões sobre tudo de que tomava conhecimento. O Lula, o mensalão, o Bush, o Fluminense, a Igreja, até o casamento do Ronaldinho. Era feliz com elas. Sim, eram todas opiniões humildes, ele sabia que não era capaz de coisas muito mais do que simples. Até a sua carpintaria era simples, reta, sem muita enrolação. Mas eram dele, e o completavam. Porque opinião, por mais idiota e incoerente que seja, tem que existir. Não por determinação moral daquele que escreve esse texto, mas porque eu acho que é fisicamente impossível que não exista. Sei lá, opinião é aquela coisa branca que veda cano. Só que na cabeça. Se não tiver, vaza massa cinzenta. Imagine massa cinzenta vazando. Morre, não morre? Então.

O que aconteceu é que, enquanto caíam gotas de chuva da ponta do seu grande nariz, o Totonho olhou para o seu grande nariz; e pronto. Resolveu pensar um pouco sobre si mesmo. Assim simplesmente, uma metafísica bem singela e humilde. Começou se perguntando por que é que ele tinha de ter um nariz tão grande. Daí pro “de onde viemos, pra onde vamos?” é um pulo. Em dia de chuva, meu amigo, acontecem milagres intelectuais. E nada do 267 passar. Quem pega o 267 sabe. O 267 foi feito pras pessoas pensarem na vida mesmo. Porque pra pensar na vida precisa-se de tempo, e o 267 é a personificação do tempo. Do muuuuito tempo.

Eita madeira, que estou divagando que nem mariposa que invade pela janela! Mas tudo bem, ele não pegou o ônibus ainda. Coitado, mal sabia que o 267 enguiçara no Mato Alto. Teve, e isso anulou a impaciência rotineira da espera, uma súbita sensação de ser idiota. Não conseguiu responder a uma pergunta aí, não importa qual seja; uma das bem escabrosas; desejou ter estudado mais. Depois pensou que o pessoal da televisão tinha estudado mais. E depois pensou na Fátima Bernardes conversando com Deus, tentando argumentar, toda fofa como só ela, como o sentido da vida proposto por Ele não era lá muito bom. Pois é, e aí ele meteu uma palavra que aprendera há muitos anos atrás, mas que só recentemente começara a usar mais, depois que leu uma matéria no Extra: e o sentido da sociedade, essas coisas? Assim como a vida, tem um sentido né? Tem que ter. Pelo menos as regras e tal, pra comunidade viver melhor. O que é certo, errado. Nossa, que o Totonho tava demais, debaixo daquela chuva! Quem passasse, devia achar que estava drogado, ou maluco. Olhar vidrado, um sorriso meio desfeito congelado no rosto, água pingando. Mas estava só pensando, coitado. Isso é cara de pensar! A água é só pra compor o cenário.

Riu pra si mesmo, lembrou de novo da Fátima Bernardes conversando com Deus. A diferença dela pra ele, além de alguns milhares de reais, era que ela falava na televisão, e ele não. Tinha aquele outro que falava difícil, o Jabor. Ele é exemplo melhor, porque ele sempre fala sabendo das coisas. Ele sim deve conversar com Deus. A Fátima, uma sobrinha dissera, só lê numa telinha o que tem de falar. Mas mesmo assim ela é estudada, lida, deve ter opiniões também. Talvez ela ensine pro Jabor. Mas quem disse que eles sabem das coisas? Eles só parecem que sabem, porque estão lá engravatados. Mas é opinião, tudo é opinião.

Eu tenho as minhas convicções também, mas será que a minha opinião é a minha mesmo? Ora bolas, o Totonho nunca foi na Palestina. Nunca viu um judeu, a não ser aquele sovina do Alberto, que não era judeu porra nenhuma, mas se dizia judeu. Onde já se viu judeu preto? Mas mesmo assim o Totonho tinha uma opiniãozinha qualquer sobre a tal guerra. E aí ele lembrou da improvável cena da Fátima conversando com Deus, e se sentiu magrinho, magrinho. Lia jornal sempre, sempre via TV, escutava rádio. Já leu até um ou dois livros, gostava de cinema. Essa porra toda é a cabeça dos outros cuspida pra cima de mim! Se sentiu quase sumindo do mapa, de tão fino. E a mancha roxa crescia dentro do seu cérebro mole de tanto sacudir em ônibus. O pior de tudo é que ele não nem tinha alternativa. Era o cuspe da cabeça dos outros ou o completo vácuo. Ele nem iria entender nada quando o Alberto falasse que era filho de “Israélicos”. Que porra é essa de judeu, ele iria se perguntar. Mas por causa da Fátima ele sabe o que é um judeu. E judeu não é preto. Ou será que é?

Caiu sentado no meio-fio. Puta que pariu, será que judeu é preto mesmo? Agora ele já não sabia de mais nada. Já não tinha mais “cara de pensar”, como há alguns minutos. Tinha cara era de maluco mesmo. Sabe desenho japonês, que quando o cara morre o pontinho preto do olho fica pequenininho? Então, o olho do Totonho ficou assim; mas ele não morreu não. Viu que tudo que ele pensava sobre o mundo vinha de esquisitos sinais desenhados sobre papel, ou então sob a forma de sons articulados, e imagens que reproduziam o que seus olhos viam. Nada vinha de dentro dele mesmo. Não tinha nada pra coisa branca que veda cano vedar. Nadinha. Nem tinha o que a mancha roxa manchar. Sentiu a cabeça leve, juro; quase flutuante. Levantou, com olhos que nem desenho japonês ainda, atravessou a rua vazia, balbuciando incoerências. E nada do 267 passar.

sábado, abril 29, 2006

Manel e seu coração

Olha que inusitado. O Manel aquele dia acordou querendo dar um abraço. Tem diferença. Receber um abraço todo mundo precisa de vez em quando. Uns, mais desesperados, precisam todo dia. Aquele dia o Manel acordou e precisou diferente. Em quem, ele nem sabia. Queria era abraçar, talvez até beijar a testa desse qualquer-um sem nome. Eu nunca vi alguém acordar assim tão doce, e o Manel não tinha nada de doce. O Manel era careca e meio fechadão, só sorri de piada suja. Seu melhor amigo é a cerveja, é solteiro, torce pelo Flamengo. Se ainda fosse pelo América... Seria um sinal de que ali dentro tinha uma alma saudosista, poética e sensível. Mas não, era Flamengo. Garra, urubu, cerveja no sofá mesmo, coçando a virilha. Discutia horas com o vizinho tricolor.

O engraçado era que se o vizinho tricolor batesse na porta naquele momento, o Manel tascava-lhe um abraço. O vendedor de aipim também. Ia ficar tão surpreso que as mandiocas todas iriam cair no chão. Abraço do Manel é forte. Só quem já sentiu foi um ou outro parente, no enterro do pai. Mesmo assim foi abraço duvidoso, abraço no outro mas que é em si mesmo. Abraço em espelho, porque espelho mesmo não dá pra abraçar.

Tenho que repetir que dessa vez era diferente. Manel ali, no banheiro de azulejos azul-claros, escovava o dente e sentia aquele apertinho no coração. Aquele que a gente sente quando não alcança algo que está bem perto da gente. Coração do Manel é grande; coração de boi, cavalo, esses bichos fortes e que só olham pro próprio estômago. Mesmo assim apertou, de solidão. Mas não solidão de carência de atenção, de amor. Não: foi é a pior solidão que existe. A solidão de estar no meio de um monte de gente que quando se toca pede desculpa; aquela que o único culpado é a gente mesmo, porque se está sozinho é porque passa a vida toda só dando tapa nas costas e fazendo brincadeira. Solidão de sentir frio.

Manel tinha quase 50. Tomava seu café puro, sem açúcar, e o pão com manteiga, dormido. O aperto no peito não parava. E isso tinha que vir agora, depois de meio século de vivência? Manel podia muito bem ter passado batido, até o fim, incólume, só fazendo piada suja. Alguns até riam delas. Tinha graça, o Manel. Pra ele, português era máquina de fazer burrice, e o Joãozinho o filho que nunca teve. Mas já divago. O que o Manel lamentava, entre as dificultosas mastigadas no pão do dia anterior, era que ele poderia dormir sem essa. Ou melhor, acordar sem essa. Porque o Manel, veja – e isso é importante -, nunca foi um cara infeliz. Gordo e peludo, talvez. Mas infeliz, nunca. Imagine então que o Manel morre aos 62 anos, de um bom e gostoso ataque cardíaco, que te leva embora sem nem dar tempo de gritar “ai!”, quanto mais de maldizer a morte. Manel teria ido feliz; quem sabe no dia anterior não teria inventado uma nova piada sobre travestis? Sessenta e dois anos de vida, muita cerveja e vitórias do Flamengo, amizades de domingo e de segunda-feira também.

Mas não. Tinha que acordar assim aquele dia, mesmo sem ter bebido no anterior. A sua gorda vida tinha que ter um calombo justo agora, quando já se encaminhava pra parte da descida. O pior era que não tinha explicação. Alguma. Sentado na cozinha, olhar preto vidrado no nada, não tinha motivo nenhum praquilo. E doía mais apertado o coração. Quis até ligar pra mãe; não sei por que não o fez. Vergonha, né? Tem gente que não tem vergonha de falar putarias em público, mas tem vergonha de abraçar mãe e pai. Vá entender. Manel, repito, não ligou. Ligou pra ninguém. O aperto no peito foi tão forte que ele quase chorou. E olha que nem era dia nublado.

Nesse dia o Manel não foi trabalhar. Dia seguinte também não. A dor no peito se espalhou pro braço, e aí já viu, né? Pois é, enganamo-nos – Eu e Manel. Ele morreu às 08:43 do dia 7 de março, uma terça-feira. Morreu como queria morrer aos 62 anos, sem nem saber direito o que aconteceu. O problema é que foi-se embora na ignorância, achando que era melancolia o que lhe afligia. Não sei se é triste ou engraçado. Essa vida...

domingo, abril 23, 2006

Enquanto isso nesse blog aqui...

Rua poeirenta, sol forte; silêncio. Muito vento. Passa uma bolinha de palha, rolando, feliz. Ser humano que é bom, nada.

quinta-feira, abril 20, 2006

Fotograma

Olhou atentamente naquele espelhinho sujo que todo mundo tem quando procura um suposto defeito na própria alma. Sentou na cama, cansado, não viu nada de errado. Nada. Se fumasse, acenderia um cigarro agora. Se bebesse, encheria a cara. Se conseguisse dormir...

Acho que todo mundo já passou pelo parágrafo acima alguma vez na vida. A diferença é que alguns fumam, outros bebem, e quase todo mundo dorme. O rapaz aí em cima não. Se você tiver a paciência de esperar, uma, duas, cinco horas, vai ver que ele nem se mexe. Que porra é essa de dar tudo errado? Quer dizer - ele corrige-se -, não é que dê tudo errado. É que antes de qualquer coisa mesmo esboçar "dar" alguma coisa, já não dá mais. Entende? Não, né. Nem ele mesmo, coitado. Essa idéia passou muito rápida pela cabeça dele pra que ele pudesse domesticá-la. Fica nisso aí, você faz o que quiser da idéia.

Aí, eu não disse? Ainda está ele na mesma posição. Até o abajur na mesinha de cabeceira - aceso não sei por que, já que é dia - mudou de posição. ("Venta muito." É a desculpa que encontrei pra fazer um objeto inanimado mudar de posição). E ele lá, nadando no nada. Nada mesmo, porque já até desisitiu do espelhinho sujo. Sabe de uma coisa? Virou foto. É isso, boa imagem. O rapaz virou foto, por isso que não se mexe. Tadinho.

quinta-feira, abril 13, 2006

À Noite e Eu

Essa noite eu não durmo não. O que é o sono perto da imensidão do mundo? Essa noite, a falsa quietude da cidade pulsa nas minhas têmporas: tum, tum tum; é quase uma dor de cabeça. Olhe pela janela, leitor: o silêncio da noite carioca é um convite à insônia. Me imagino morcego, voando sobre os telhados do Rio de Janeiro; ou Sydney, Havana, Riad: os morcegos são os mesmos.

As cores das luzes da cidade sempre fascinaram esse morcego aqui. Os raios amarelos das lâmpadas de mercúrio, os vermelhos das dos freios e o verde das fluorescentes: todas elas, refletidas na carroceria dos carros, me fazem ainda mais morcego. Sobrevôo o branco esverdeado da iluminação de um posto de gasolina, e ponho-me a pensar: tentativa de frustrar a escuridão? Que nada. Todas as luzes são um brinde, uma coroação à Noite. Enfeitam-na com frios adornos. Silenciosos, porque luz não faz barulho. E aí o silêncio nos convida a sorrir pra dentro, aquele sorriso tão negro quanto a própria noite. Sorriso negro sim, só nosso. Daqueles que não se compartilham e é bom assim. Se você nunca sorriu assim, vá fazer outra coisa: esse texto é para os gourmets da solidão noturna.

Tum, tum, tum. Deixo-me vestir de negro e finjo que o mundo dorme, para que ninguém me veja e eu seja o senhor de mim mesmo. Vôo, não olho pro céu; é pra cidade que me atraio; mergulho numa avenida qualquer. Vazia, conforme eu previra – ou comandara. Empoleirado em um velho outdoor, divirto-me com o sinal vermelho, verde, amarelo. Nenhum carro passa, nem vai passar, porque eu disse que não. Só quem passa é o vento, levando três ou quatro arrepios de espinha.

A brisa da noite carrega também papéis – escritos, impressos, pintados... Essas coisas diurnas. Em pequenos redemoinhos, eles dobram uma esquina próxima. O vento é bom pra passar essas coisas rápidas pela nossa vida. Logo somem.

Ali perto, um som de ônibus parando. Ou bem longe. Nessas horas escuras as distâncias enlouquecem. Som mesmo, mas não quebra o silêncio; é concessão minha nesse teatro de solidão. Em algum lugar, o ônibus parou e chiou. Mas é lugar nenhum. Em lugares nenhuns é que os ônibus param nessas horas tão madrugadas. Só me asseguram de quanto estou longe de tudo. O motorista fantasmagórico espera, impassível, o sinal abrir. Amarelo, vermelho, verde... Há que se dar um mínimo de verossimilhança às nossas imaginações.

Levanto vôo de novo. É dos telhados que realmente gosto. Imagine poder subir 100 metros acima de uma metrópole e gritar a todos pulmões? Há delícia maior? Pois esse morcego pode tudo. Brado sobre a cidade teatralmente adormecida. Obviamente, ninguém desperta. O Rio de noite é só eco. Meu sorriso negro alarga-se; vôo em direção ao mar.

Tão alto e macio quanto o céu é o mar noturno. E eu sei de onde vem o mar. É tantas vezes a noite caindo; de novo, de novo. O mar é o acúmulo de todas as noites que já existiram na Terra. É isso que nos conta aquele jeitão escuro, a superfície áspera e aquele cheiro salgado. E é para ele que me dirijo agora; de morcego para golfinho, me deixo livre no ar – cair é melhor do que mergulhar. O mar me aceita, e eu me deito no seu colo indefinido. Ali, no meio do nada, nada se enxerga, nada se ouve; ali, quase nada se sente, a não ser as têmporas pulsando o velho “tum, tum, tum”. Ali se sorri pra dentro. É... O mar, sem dúvida, é filho da Noite.

Onde que vai parar essa viagem? Oras, a resposta é óbvia: na aurora. Inevitavelmente, o sol vai raiar. Em minutos, talvez; horas, tomara. Vai ser tempo de voltar pra casa empapado de maresia, e com um olhar meio torto. Nada mais triste do que o café-da-manhã depois de uma experiência dessas. O cheiro de pão nessas horas me enoja; aquele cheiro tão morno quanto a noite foi fria, que só serve pra me meter goela abaixo as frases “À noite, dorme-se. Nada de poesia. Está na hora de trabalhar.”. Como sim, tomo até leite junto. Levanto e vou viver o dia. Mas saio desconfiado, achando que o dia é que foi feito pra ser dormido.

Aí, na boa

Qualquer e-mail que começa com "SÉRIO!", "Não apague!", "É verdade!!!!" etc, está pedindo para ser apagado. Um motivo para cada exemplo: 1) Palavras inteiras em letras maiúsculas são um ótimo cartão de visita... pra jogar na lixeira. 2) Todo mundo sabe como a gente adora desobedecer uma ordem. 3) Me recuso a ler qualquer coisa de alguém que usa mais de 3 pontos de exclamação de uma vez.

Estou mau-humorado mesmo. É que a noite está quente. Noites foram feitas para serem frias, ora bolas. E tenho dito.

terça-feira, abril 04, 2006

Como se fosse ontem

O quarto é úmido, é dela. Antes de entrar lá, eu já sabia. O quarto é escuro, meio arroxeado, e a cama é de ferro. Sabia, sabia assim que vi os olhos grandes. Essa mulher é dona de um mundo só seu, uma masmorra, um cárcere abafado. Antes do primeiro “oi” eu já via a enorme e austera cama de casal, metálica, antiga, absoluta; sabia que era a cama dela e que ali não tinha volta. Quem nunca foi adivinho que atire a primeira pedra.

Uma pessoa prudente, portanto, jamais teria dito sim, jamais teria olhado nos seus olhos. Mas “prudente” é um adjetivo que só existe escrito; nunca vi homem nenhum estampá-lo. Fui mesmo, caminhei por entre prédios na madrugada, bebi licor com ela, e me vi refletido nos seus grandes olhos, me vi preso nos seus cabelos. Parece que já sabia de tudo que ia me acontecer. Mas então, eu me pergunto, algum dia de fato eu já fui pego de surpresa? Ou será que a gente sempre sabe o que nos espera? Tenho sempre a impressão de que sei exatamente pra onde estou indo, mesmo que, sei lá, caminhe de costas. Quando paro pra pensar nisso, é aterrorizante. Mas quando vivo e caminho, nem tremo. No viver, o que acontece é que, a adivinhação, a gente sente lá no fundo, daquele jeito que, se perguntar, a gente não sabe responder. Mas que a gente sabe o que é. Ah, como sabe!

E eu não sabia? Pois já via tudo, escrevia toda a História antes mesmo de acontecer. Caminhava do seu lado, hipnotizado pelos fartos cabelos pretos. Ela andava sem olhar pros lados, sorria pra si mesma, escondia-se nos seus cabelos. E eu perdido, contava as rachaduras da calçada. Pra que olhar pra ela, se eu já a tinha descoberto toda? Ela era dona daquele quarto úmido e arroxeado, ela era aquela cama metálica. Metal para quem é metal; madeira para quem é orgânico.

O dia começava a terminar, eram umas cinco da tarde. Dia nublado, todo manchado de cinza, sem sombras. Imagine quanta majestade ela tinha num dia desses! Alta, nem tanto quanto os prédios, mas mais imponente do que toda a avenida. Era mais aço do que todo o quarteirão. Dava pra ver nos grandes olhos, e ter certeza lá dentro dos cabelos. Eu: mil vezes adivinho.

É o tipo de coisa que só acontece uma vez na vida. A gente sobe as escadas, e já sabe quanto degraus têm. A gente sabe que porta que é, e a textura da cama. A gente sabe quantos minutos resiste até a coroa de fios negros nos sufocar. Só uma vez. Antes disso, só preparação. Só uma vez, então? É que, cada vez que acontece, começa uma vida nova. A alma velha fica lá, enredada nos fios negros da vez. E a gente vai indo, vindo, contando as rachaduras da calçada. Até que veja tudo de novo. Ela, olhos grandes abertos, cabelos negros e volumosos, sorriso escondido por eles. Ela convida antes mesmo de chegar perto. Eu aceito, recordando todas as mortes anteriores. Lembro de tudo que vai me acontecer. Como se fosse ontem.

terça-feira, março 21, 2006

A alguém

Sou uma mulher imprecisa. É melhor avisar-te logo, caro senhor, para evitar que rasgues essa carta já na quinta ou sexta linha. Sim, sou uma mulher indefinida, vaga, ligeiramente aquosa. Portanto, tenha calma, e faz o que quiseres com isto. Não é importante que ouças, mas é essencial para a minha sanidade que eu diga.

Serei direta: amo-te. Soube ontem, por volta das oito e meia, na terceira dose de vodca. Dizem que o álcool nos enevoa o juízo; eu digo que ele nos dá um quê de pitonisas. Falo por nós, mulheres. Os homens estão longe de suas fronteiras; sempre capitais. Ademais, eles resistem melhor à embriaguez. Já nós, mulheres, estamos sempre no limite de nossas imprecisões, e qualquer pequeno empurrão nos faz cair. No abismo de nós mesmas.

E eu caí de cabeça. Mas não digo que tenha sido uma epifania. Estas são místicas, levemente divinas. Eu despenquei foi num poço de entranhas e lama. Lá, eu vi todos os homens que passaram: pela minha cama, pela minha rua; pelo meu ventre, pelo meu pensamento. Amei todos eles. Alguns com fogo, outros com sonho. Às vezes o amor morava no sangue; outras nos fios de meu cabelo. Como vês, amei demais.

Entretanto – não se assuste, lindo rapaz -, jamais amei como a você. Sim, você. E mesmo quando o meu coração e o meu sangue – ou os insensíveis fios de cabelo – eram dos outros, eles eram também seus. Pois eu o amo desde o primeiro dia em que não o vi. Você, lindo rapaz; tu, caro senhor, que talvez...

“Talvez”, que nada! Meu abismo me diz que você não existe. Mas sou uma mulher imprecisa. E acho que espalhei um pouco de ti por todos os homens de minha vida. Você, que não tem olhos, boca ou livro predileto. Tu, que és tão impreciso quanto eu mesma; sem nem mesmo um pronome pessoal definido; aquoso como meu abismo; curvo como um espelho retorcido. Um espelho...

Digo, já pela terceira vez, que sou uma mulher imprecisa. Como um espelho. Podes imaginar, caro senhor, um espelho impreciso? Assim o são todos os espelhos de mulher. Assim é você, meu lindo rapaz. Um espelho tão vago que eu nem me reconheço mais. Espatifei você. Espalhei teus cacos, antes mesmo de me ver lá dentro. E só agora, com a ressaca da bebedeira de ontem, é que começo a ver. Um pedaço aqui, outro acolá; alguns nos meus – sempre insensíveis – fios de cabelo; muitos outros na corrente sangüínea. Terei como juntá-los? Mas não, cacos não se juntam. Cacos se jogam fora, se esquecem; pelo menos até o próximo porre.

Obs: Bernardo não mudou – nem pretende – mudar de sexo.

segunda-feira, março 13, 2006

Pequena parábola - Parte II

... o Remela foi brincar na casa do Pedrinho. O Remela... Bem, o Remela era o grandalhão da vila, e, como todo grandalhão das histórias, sua burrice era do tamanho da sua força, que era impressionante. Admirável também era a quantidade de secreções que saíam de seus olhos, nariz e ouvidos, e o que ele fazia com elas. As garotas não gostavam nem um pouco, mas quem liga pra elas?

Aproveitando-se da “lentidão” do vizinho, Pedrinho logo convenceu-o da inferioridade tecnológica de seu exército, que, apesar de contar até com o último modelo de helicóptero de combate, não tinha o “plus a mais” proporcionado pelos engenheiros químicos do inimigo. A tropa do Remela foi trucidada rapidamente. Turbinada pelo “combustível atômico” Aerolin, a cavalaria blindada de Pedrinho agiu com uma mobilidade de dar inveja a Rommel. Logo Remela foi cercado, e sua superioridade aérea não pôde fazer nada contra as rajadas de Rinossoro da artilharia antiaérea do adversário. Uma vitória decisiva.

Atônito, o Remela olhava para o campo de batalha. Perto de um dos pés da mesa de centro, jazia o todo-poderoso helicóptero, que ganhara no último Natal; não houve sobreviventes. Enquanto isso, no acampamento adversário, os médicos aplicavam comprimidos de Claritin D nos ferimentos dos soldados, que logo ficavam de pé. Assombrado, o Remela perguntou: “Onde você arranjou isso tudo?”. “Segredo de Estado, Remela”, Pedrinho respondeu, sorrindo. “O que eu não daria pra ter um arsenal desses também...”, suspirou o Remela, enquanto guardava, sem o menor cuidado, seu helicóptero de volta na caixa. “!”, acendeu-se a luzinha na cabeça do Pedrinho, que teve sua primeira grande idéia. “Você é um gênio, Remela!”.

domingo, março 05, 2006

AAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!

Que foi? Nunca teve vontade de gritar não?

sábado, março 04, 2006

A volta pra casa

Saudei o pardalzinho na esquina da minha rua. Cada mancha escura nos muros das casas! Do que são feitas? Umidade, talvez. Mas, lá dentro; acho é que surgem da vida de sem-mais-querer dos suburbanos. Eu via.

É que a gente mais percebe a tristeza do mundo quando está demais feliz. Pardalzinho me saudou de volta. Ê, pardalzinho bonito! Somos nós dois no topo do mundo, e esse povo com manchas nos muros... Aquele dia, se eu quisesse, te juro que voava igual um pardal. Era só estalar os dedos e pensar nela, e lá ia eu, voando de pouquinho em pouquinho, um galho aqui, um poste ali – pra não cansar – e voltava. Porque pássaro é isso aí; voa porque é leve de alegre.

Não se estranhe com o meu dizer as coisas assim, meio solto. Mas assim que é a vida da gente. Eu narro aqui uma descida de rua – da esquina até a minha casa; enquanto desço, a minha vida toda revolve em si mesma, dentro da minha cabeça, em menos de 200 metros. Como pode? Ah, se pode! Penso no pardalzinho, na prova de geografia da 7ª série e até na batata grande que vi outro dia no mercado. É tudo assim, espalhado, que nem lixo na rua depois da Comlurb passar.

Mas principalmente eu pensava era nela. Pensamento da gente acho que precisa de algo que junte tudo e dê sentido. Porque senão a gente acaba até morrendo, imagino. E era ela que agregava todo o meu sentir e pensar, e não tinha prova da escola de toda série que fosse que não tinha ela no meio. É isso aí. Fragmento é só ilusão. Na verdade está tudo ligado, perfeito sedimentado em coerência. Isso eu vi depois que o pardalzinho voou. E tinha as manchas no muros; só tinha tristeza nelas porque tinha eu no topo do mundo.

Eita, mas que isso era parágrafo pra fechar tudo e explicar a maneira de contar desrabiolada. Mas já veio, então aí fica, na quarta posição. Aí eu já descia, passava pela frente da casa do velho que nunca saía da porta. Nunca tinha dado bom dia praquele velho, que sempre pareceu olhar pra mim com cara de vô. Ê, vô! Nunca tira o pijama, ele. Parece que acordou de um pesadelo e veio encontrar a juventude na porta, batendo. Pesadelo real; ele era desremediadamente velho mesmo.

E eu jovem. Eu amante e amado, voltava do céu. Passei pelo vô, não dei bom dia não. Três passos atrás eu teria saudado, que nem com o pardalzinho. Engraçado os ânimos da gente; mudam com dois metros de caminhada. Eu já pensava nela de novo, e no beijo roubado no meio do jardim. E o beijo fechou o dia, e fechou minha vida: ali eu podia morrer satisfeito. Sabe quando a gente se sente em casa? Eu me sentia no céu. E o céu é a casa de todo mundo.

Uma vez eu vi Deus no céu, te juro. Não lembro se era verdade sonhada ou acordada, mas o que é certo é que era Deus, e que ele era cor de abóbora; uma fumacinha assim, meio Fanta Laranja. E aí eu não lembro mais nada. Sei que falou comigo, me deu missão, me xingou, contou piada, sei lá. Mas ele falou, e agora, a 50 metros da casa, lembrei que ele falava era dela, e do beijo no jardim. Lembrei, quer dizer, meio na cara-de-pau. Lembrança é sempre fragmento, e sempre mentirosa. Porque, note, recordação é pensamento como qualquer outro, e – veja a explicação que está lá, na quarta posição – pensamento de ser humano só ganha sentido por outro pensamento. Bicho pode até pensar diferente. Mas homem é assim.

Então eu era isso? Tudo o que vivi não tinha sido nada – monte de pedacinho voando à toa – até que chegasse um anjo que me deixasse roubar um beijo no jardim? Acredito que sim, e não tenho vergonha não. Tem gente que passa a vida toda que nem fugindo da chuva: de cabeça abaixada, correndo, com medo de juntar seus caquinhos de viver. E tem gente que não roubou beijo no jardim, e junta seus fragmentos num sem-mais-querer suburbano. Dá mancha nos muros. Mas eu não. Cheguei em casa, recém-pintada. Pardalzinho me esperava no portão. Ê, pardalzinho bonito!

quinta-feira, março 02, 2006

Pequena Parábola - Parte I

Enxotado, com as roupas puídas, arruinado, Pedrinho chorava que dava dó. Mas sua mãe só iria voltar bem mais tarde, e ele, na falta de colo, tinha que se contentar em chorar na sua cama com colcha do Batman. Como havia chegado a esse ponto? Ele não se conformava.

***

Tudo começou quando, um dia, a correspondência chegou, e sua mãe não estava em casa. Entre contas de telefone, água, luz e anúncios de promoções no mercado da esquina, lá estava uma caixinha de papelão. Hermeticamente embrulhada num plástico transparente, endereçada à mãe e sem a menor pista de seu conteúdo, era demais para resistir.

Primeiro cuidadosamente, tentando rasgar com o canino as bordas do plástico, depois, já bem impaciente, arrancando tudo que o impedia de abrir a caixinha, Pedrinho olhou seu conteúdo. Ah! Então era assim que mamãe arranjava tanto remédio!

Aqui cabe um parêntese. Ei-lo: (A mãe de Pedrinho era médica e, como tal, recebia regularmente uma certa quantidade de amostras grátis.)

Embalagens verdes, amarelas, faixas vermelhas; comprimidos, conta-gotas, colheres de plástico. Tinha de tudo dentro da caixinha; Pedrinho ganhara na loteria. Suas brincadeiras haviam recebido um “plus a mais”, como dizia sua irmã.

Logo seus bonecos, em suas intermináveis guerras sanguinárias, tinham que lidar com um arsenal extenso de armas químicas, perigosíssimas para a vida na Terra. Se aquele tubo de Eritromicina caísse em mãos erradas... E quantas vidas foram salvas porque o médico do pelotão tinha uma ampola de Buscopam nas mãos? Como podemos ver, a única conseqüência do achado do Pedrinho havia sido o avanço tecnológico de suas tropas combatentes. Até que um dia...

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Quatro parágrafos bobos

Abre parêntese: felicidade não é verbal; muito menos poética. Não é metafórica ou metonímica, nem aceita adjetivos. Felicidade é quase - tão quase - burra. Ou iletrada.

Felicidade nem se chama felicidade; mudou seu nome já faz tempo. Hoje em dia, ouvi dizer que corre por aí, nas casas dos pobres e medíocres, enquanto os poetas... Bem, os poetas são inteligentes demais; estúpidos. Analfabetos em vida.

O sol já vai indo e ela com ele. Para onde? Para os pagodes e boates, novelas e bailes funk, brincar de se esconder e achar, sem documento algum que não o da simples existência. Ela é só danças e erros de ortografia ou dicção. Felicidade não se escreve nem se diz. Não é à tôa que beijos não falam.

Felicidade é canhota. É lápis mal apontado, desenhando bonecos na carteira durante a aula. É trêmula, cheira a perfume barato, mancha a roupa se não colocar de molho. É feijão com estronofe. Precisa de calculadora para calcular, talvez nem saiba assinar o nome. Mas sempre a usam pra fechar parêntese.

sábado, janeiro 28, 2006

Exumação

Esse texto aqui cheira a mofo. Trata-se da minha primeira - e única - coluna para uma malfadada empreitada que tive no início da faculdade: o 30segundos.

A simpática idéia consistia em um programa na tv universitária + um site cujo tema fosse a publicidade. Ambos não foram à frente, e não sinto muita falta, vista a minha quase ojeriza à publicidade hoje em dia.

Mas o texto não é mau. Ignorem os erros de pontuação. ; )

A Primeira Vez

Tenho o orgulho e a honra de publicar o primeiro de muitos textos do 30segundos. Como já ficaram roucos de tanto dizer: "A primeira vez a gente nunca esquece". Pois é. Experiências novas sempre nos marcam, sendo elas prazerosas ou intensamente dolorosas.

Quem não se lembra da primeira vez que foi picado por uma abelha? Eu me lembro. Estava na piscina de um clube, nadando, feliz com minha infantil ignorância sobre o ferrão desses animaizinhos. Quando fui sair, apoiando minhas mãozinhas tenras nas bordas da piscina, um levado zangão (ou abelha. Sei lá, é tudo igual.) que tomava sol por ali resolveu me machucar. Deleitando-se na sua eterna maldade selvagem, meteu-me um ferrão na palma da mão direita. Tudo bem, eu o estava esmagando com a força que fazia para sair da piscina, e você pode argumentar que ele não teve tempo para pensar direito, pois estava morrendo, mas eu ainda hoje acho que ele fez aquilo por prazer. Desnecessário dizer que chorei que nem uma criança (afinal, eu era uma criança) frente àquela dor lancinante. Fiz uma cena, meu pai veio e espremeu o ferrão da minha mão. Depois daquele dia, passei a olhar aqueles bichinhos amarelos-e-pretos com um misto de respeito e temor, e também nunca mais tive simpatia pelo time do Criciúma.

Também existem aquelas primeiras vezes memoráveis, de tão maravilhosas. Alguém aí se esqueceu da primeira vez no Maracanã (isto é, alguém que tenha ido ao Maracanã)? Eu não. Lá pelo final dos anos 80, ou início dos anos 90 - não me lembro bem - meu pai levou seus dois filhos para um emocionante Flamengo x Botafogo. Nessa época, ainda sem a iluminação espiritual que me sobreveio posteriormente, eu torcia para o Botafogo por influência do meu pai. Minha irmã já sofria do mal de ser flamenguista. Pois bem. Lá fomos nós para o Maracanã, que na época tinha estacionamento de pó de pedra, carregando duas bandeiras feitas pelo nosso progenitor: uma preta e branca, e outra preta e vermelha. Bom, quanto ao jogo em si não lembro de muitas coisas, afinal eu era um pirralho, e o resultado da partida até hoje é motivo de controvérsia: minha irmã pode jurar que o Fla ganhou por 2x1, mas eu sei muito bem que foi o Fogão que ganhou por esse mesmo placar. No entanto, o que eu não esqueço é a emoção que senti ao entrar no anel da arquibancada, o me fez me apaixonar de vez pelo futebol.

É claro que também existem aqueles clichês do "primeiro beijo", "primeira relação sexual", "primeiro soco na cara" etc. Contudo, já se falou tanto sobre essas primeiras vezes que seria chover no molhado. E também invadir "Restricted Areas". Como eu não gosto de chover no molhado nem que invadam minhas áreas restritas - sem trocadilho - não vou falar sobre isso. Acho que já deu para dar o gostinho de "primeira vez" nesse site. É o primeiro ingrediente do tempero. O resto da equipe daqui a pouco começa a colocar a mão na massa também, e aí o site vai ficar uma delícia. Até lá, fiquem com o que temos agora e cuidado com as abelhas quando estiverem na piscina!

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Um casal

- Bruno, era camarão. E digo mais: com molho de abacaxi.
- Abacaxi?
- Abacaxi.
- Júlia, esse prato nem existe.

Mas Júlia achava que existia. Não só isso; ela tinha certeza de que fora esse prato que ambos comeram no longínquo jantar do seu primeiro encontro.

- Querida, comemos medalhão ao molho madeira. E eu sei disso por um motivo muito simples: lembro de ter passado quase meia hora pensando em como, sem que você percebesse, limpar a maldita carne de entre meus dentes.
- Ué, camarão também prende no dente. Aliás, abacaxi também.

Ela tinha razão; essa era uma das razões pelas quais ele odiava a fruta. Mas ele tinha um argumento irrefutável:

- Nem sei por que estou me dando ao trabalho de discutir com alguém que confunde a Winona Rider com a Uma Thurman...
- Ai, Bruno! Você é irritante, sabia? Até quando você vai usar isso? Convenhamos, uma pequena confusão dessas não desqualifica a minha memória.
- Júlia, uma é loura e nórdica; a outra é morena e cleptomaníaca. Não há credibilidade mnemônica que resista.
- Você fala de credibilidade, mas não fui eu quem esqueceu 15% dos nossos aniversários.
- Pra isso ela tem uma mente matemática...
- Que bom que você reconhece. Veja: por indução, eu tenho a maior probabilidade de estar correta.
- Ih, não vem com esse papo de lógica não. Quer saber? Em cinco minuto chegaremos ao restaurante, e será tudo esclarecido.
- Isso mesmo! Você vai ver que eles em servem medalhão. O maître resolverá a questão.
- Ou, quem sabe, a Uma Thurman.

Ele riu sozinho, e os cinco minutos restantes foram de silêncio. O mesmo silêncio que antecede as grandes batalhas.

- Chegamos!
- Você vai ver só!
- Teimosa...
- Chato...
- Boa noite! O que os senhores vão querer?
- Camarão com molho de abacaxi, por favor!
- Desculpe, senhora. Nós não temos esse prato.
- Hm, a Uma Thurman deve ter comido tudo...
- Ridículo...
- Como, senhor?
- Er, nada, garçom. Desculpe. Nós vamos querer o medalhão ao molho madeira.
- Lamento, senhor. Mas isso também não está no cardápio.
- Ah, não?
- Não.
- Ahn...
- Mas nós temos ótimas massas.

Comeram o ravioli.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

O mistério do jaguar

Algumas estranhezas chegam de repente, mesmo que sempre tenham estado bem na nossa frente. Na nossa cara. Quase nos mordendo.

No meu caso, a expressão correta é “quase caindo na minha cabeça”, porque falo de um quadro que tenho no meu quarto. Trata-se de uma baía, à noite, vista de uma estrada no alto de uma colina. Na pista, em primeiro plano, um magnífico jaguar azul – o carro, pois onde já se viram felinos azuis? – desfila em alta velocidade. Elegantíssimo.

Agora, a questão é: o que faz um quadro de uma máquina que parece saída da capa da revista Quatro Rodas na parede do quarto de um rapaz que mal sabe distinguir um Astra de um Vectra? O que diabos faz esse adorno na casa desse menino, que, aliás, só sabe que se trata de um Jaguar porque foi alfabetizado e pode ler sem dificuldade a palavra “jaguar” no alto da figura?

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Para descontrair

www.chucknorrisfacts.com. Esse blog anda meio abafado, denso e pesado. Como a vida não é só isso, esse post aqui será humorístico. Esse site aí ao lado é uma das coisas mais engraçadas que vi na internet nos últimos tempos. Como o próprio nome implica, trata-se de uma série de grandes verdades acerca do todo-poderoso Chuck Norris (Patrulheiro Walker, Comando Delta etc). Abaixo, uma pequena seleção, entre as centenas de sábios aforismos do site:

- Quando Chuck Norris cai na água, ele não fica molhado. A água fica Chuck Norris.

- Chuck Norris pode dividir por zero.

- Chuck Norris não faz a barba; ele chuta a si mesmo na cara. A única coisa que pode cortar Chuck Norris é Chuck Norris.

- No seu aniversário, Chuck Norris aleatoriamente escolhe uma criança para ser atirada ao sol.

- O show "Survivor" tinha a idéia original de colocar pessoas abandonadas em uma ilha com Chuck Norris. O programa piloto foi um fracasso.

- Bush estava mentindo sobre as armas de destruição em massa no Iraque. Todos sabem que Chuck Norris jamais esteve lá.

- Chuck Norris pode tocar MC Hammer (Pra quem não entendeu, é o cara que fez a música "Can't touch me").

- Chuck Norris brincou de roleta russa com um revólver completamente carregado e ganhou.

- Chuck Norris é a razão pela qual Wally está se escondendo.

- O rascunho original de Senhor dos Anéis tinha como personagem principal Chuck Norris. O livro tinha apenas cinco páginas.

- Se, por algum estranho paradoxo do espaço-tempo, Chuck Norris lutasse consigo mesmo, Chuck Norris venceria. Ponto.

- Nós vivemos em um universo em expansão. É porque todo ele está tentando fugir de Chuck Norris.

- Chuck Norris pode queimar formigas com uma lupa. À noite.

- Chuck Norris não pode amar. Ele pode apenas não matar.

- Foi Chuck Norris que matou o Cel. Mostarda, na Livraria, com um chute na cara. Quem disser o contrário é um mentiroso.

- Godzilla é uma dramatização japonesa da primeira visita de Chuck Norris a Tóquio.

- Não há rosto por detrás da barba de Chuck Norris. Há apenas um outro punho.

- A Grande Muralha da China foi construída para manter Chuck Norris fora. Falhou miseravelmente.

- Chuck Norris sempre sabe a exata localização de Carmen San Diego.

- Originalmente, Chuck Norris aparecia no jogo "Street Fighter II", mas foi removido pelos desenvolvedores porque todos os botões o faziam dar um chute na cara do oponente.

- Um fato médico pouco conhecido: Chuck Norris inventou a cesariana quando ele chutou o seu caminho para fora do útero de sua mãe.

- Em média, existem 1.242 objetos em um quarto que Chuck Norris poderia usar para te matar, inclusive o próprio quarto.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Desabafo de uma alma aleijada

Ao amanhecer parto de novo para a batalha. Nessa guerra perdida, não participo por lutar, e sim para morrer a cada dia. Toda alvorada, me dirijo ao campo de combate, acompanhado de um pelotão de fantasmas do meu passado e futuro; invariavelmente pereço. Sim, é uma guerra perdida. Mas não aceito outra existência.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Trilha sonora

Cara-caramba-cara-caraô. Era essa a trilha sonora de sua vida; um emaranhado de fonemas que nem chegavam a ser onomatopéias; irremediavelmente inexpressiva.

Jamais amou alguém a não ser por intermédio de poemas e músicas compostas por outros. Supria a necessidade de palavras com indolência, folheando dicionários ou com a despreocupação de quem tem certeza do mundo.

Sabia do Universo como a serpente sabe do céu. Sentia-se vivo, e até olhara para as estrelas duas ou três vezes, mas nem uma vez desejou alcançá-las; seu deserto de sal o fazia feliz.

Sim, jamais conheci alguém mais feliz. Tinha uns olhos honestos e um doce sorriso infantil. Deu a si mesmo para mulheres, filhos, amigos; jogou futebol, ardeu debaixo do sol, e talvez até tenha corrido o mundo. Riu e chorou deveras, ergueu taças e engoliu derrotas; sempre sonhou em visitar um lugar qualquer. Beijou, trabalhou, cantou, se desesperou e dançou. Ah, como dançou! A trilha sonora já conhecemos. Cara-caramba-cara-caraô. Belíssima música

Poeminha verde

No escuro do quarto
Piscou o vaga-lume.
Voou, sobrevoou, revoou.

Iluminado pela fraca luzinha,
O menino esboçou um sorriso;
Nos seus olhos viam-se lágrimas.

Lágrimas verdes
O inseto era a única luz que havia.
Lá fora não tinha lua
E a janela estava fechada.

O menino esboçou seu sorriso
Também verde como o vaga-lume.
Este se aproximou e piscou outra vez
Tão perto que lhe beijou a testa.

Se sorria também, não se sabe;
O certo é que sabia beijar as testas de meninos tristes.

As lágrimas verdes desceram pelo rosto verde,
E o menino, já todo verde,
Quis perguntar ao vaga-lume
Algo de que não sabemos.

Talvez nem ele soubesse;
O certo é que o vaga-lume apagou
E a escuridão voltou.